Carta

Blason   Abadia de São José de ​​Clairval

F-21150 Flavigny-sur-Ozerain

France


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5 Janeiro 2021
festa de são Geraldo


Caro amigo da Abadia de São José

«Ànossa humanidade desorientada que não sabe encontrar Deus ou O desfigura, que procura algum apoio que possa ser fundamento da sua esperança, Isabel da Trindade dá testemunho perfeito de abertura à Palavra de Deus » —declarava São João Paulo II na homilia da beatificação desta carmelita (25 de Novembro de 1984). No dia seguinte, dirigindo-se aos peregrinos, o Papa acrescentava : « Testemunho admirável da graça do Baptismo que floresceu num ser que a acolhe sem reservas, ajuda-nos a encontrar todos os caminhos da oração e do dom de nós mesmos ».

Aquela manhã do domingo 18 de Julho de 1880, no campo militar de Avor, perto de Bourges (França), reina o receio na pequena casa onde a senhora Catez espera o primeiro filho : « Tive uma menina —explicará depois—, Maria Isabel, condenada antes de nascer pois os dois médicos que me acompanhavam, disseram ao meu marido para perder esperança na sobrevivência do bebé, visto o seu coração ter deixado de bater ; mas Deus velava, e, durante o último evangelho da Missa, que tinha pedido ao capelão e que se celebrava na capela do campo, a pequena Isabel fazia a sua entrada na vida, muito bonita e muito viva ».

Uma Confissão que marca

No mês de Novembro de 1882, a família Catez instala-se em Dijon. A 20 de Fevereiro de 1883, nasce uma segunda filha, Margarida, chamada “Guita”. Um profundo afecto uinirá as duas irmãs, apesar das diferenças de temperamento : Isabel é viva e ardente, por sua vez Guita mostra-se doce e reservada. Na qualidade de filha e neta de militar, Isabel herdou, com efeito, um carácter bem temperado. « Desde pequenina —testemunhará Guita—, Isabel irritava-se muito, era muito viva e impulsiva… de natureza muito sensível e muito afectuosa, para quem o maior castigo era ser privada das carícias da mãe ». A 2 de Outubro de 1887, o senhor Catez morre subitamente, nos braços de Isabel, uma criança com apenas sete anos. Ao ver reduzidos os seus recursos económicos, a senhora Catez e as duas filhas deixam a casa e vão habitar num apartamento, também em Dijon. A vida continua, e as irritações também… Isabel tenta dominar-se para ser agradável para com os mais próximos. A mãe fala-lhe de Deus, e a pequena começa a frequentar a catequese : a partir de então, o seu coração recto e profundo é tocado ; esmerando-se em não pensar em si mesma para agradar aos demais e a Jesus. No final do ano, confessa-se pela primeira vez. Aquele dia permanecerá na sua mente como o da sua “conversão” e do despertar para as coisas divinas. A madre Germana, a prioresa das carmelitas, confirmará : « A própria Isabel referiu-me que a sua resolução verdadeiramente reflexiva e perseverante de vencer as violências data da sua primeira Confissão ».

No decurso das férias veranegas de 1888, Isabel encontra-se com a família em Saint-Hilaire (Aude). Ao pároco da aldeia, o cónego Angles, confidencia : « Era numa tarde —escreverá em 1907 à madre Germana—… Isabel sentou-se nos meus joelhos. Depois, aproximou o rosto do meu ouvido e disse-me : “Senhor Angles, vou para religiosa ; quero ser religiosa !”. Recordarei durante muito tempo aquele acento angelical… e também a exclamação algo indignada da mãe : “Que diz esta pateta ?”… A senhora Catez, ansiosa, perguntou-me se, verdadeiramente, acreditava numa vocação. Respondi-lhe com uma frase que trespassou a alma, como se fosse uma espada : “Sim, aredito !” ». A 19 de Abril de 1891, Isabel faz a primeira Comunhão na igreja paroquial de Saint-Michel de Dijon. O seu encontro íntimo com Jesus vivo, presente no seu coração, é um instante de graça e de alegria que produz uma nova transformação interior. « A partir daquele dia, nunca mais houve arrelias ! » —escreverá a mãe. Da parte da tarde, Isabel dirige-se ao Carmelo, e a madre Maria de Jesus informa-a que o seu nome significa “Casa de Deus”.

Dois meses mais tarde, recebe o sacramento da Confirmação. « A partir desse momento —testemunha a amiga Maria Luísa Hallo—, Isabel tornou-se ainda mais fervorosa ; comungava com frequência e derramava depois abundantes lágrimas ». A mãe espantava-se perante um fervor que considerava demasiado intenso, mas Isabel sente crescer em si a fome desse Amigo que a alimenta e fortifica maravilhosamente. Cada vez mais, Jesus é para ela “o Bem-amado da Eucaristia”. Todavia, durante anos, só lhe será permitido comungar uma ou duas vezes por semana, segundo o costume da época. Não obstante, pode visitar e adorar esse Bem-amado presente no sacrário. Deseja ingressar no Carmelo, mas a mãe não tem a mesma opinião : proíbe-a que se dirija ao locutório do mosteiro próximo, e encoraja-a a descobrir a vida do mundo. Isabel torna-se vaidosa, gosta de usar belos vestidos e jóias, além de participar com satisfação nos serões mundanos, todavia cuidando em preservar a presença de Deus.

« O meu segredo »

Aos oito anos de idade, Isabel entrou no Conservatório de música. Com ortografia algo deficiente, mas as longas horas passadas diante do piano, em companhia de Chopin, Schumann, Liszt e outros grandes compositores, desenvolvem nela um profundo sentido de beleza. Aos treze anos, obtém o primeiro prémio do Conservatório e, no ano seguinte, o prémio de excelência. Um dia desvendará o seu segredo ao escrever a uma amiga : « Rezarei por Madalena para que Deus a invada até aos seus deditos, e desafio quem quer que seja que rivalize com ela. Que não se ponha nervosa ; vou transmitir-lhe o meu segredo : deve esquecer-se de todos os que a escutam e pensar que está só com o Mestre divino ; então, toca-se para Ele com toda a alma e consegue- se tirar do instrumento sons plenos, ao mesmo tempo poderosos e suaves. Oh ! Quanto me agradaria falar-Lhe assim ! ». Quando Isabel toca, ela está, com efeito, com « o Amigo de todos os instantes », com Deus que é Amor e que preenche o seu coração.

Na mesma época, Isabel participa nas actividades da paróquia : ensina catequese, canta no coro e atrai jovens à igreja para rezar durante o mês de Maria. Mas o seu desejo de entregar-se por completo a Jesus não deixa de crescer. Uma manhã, no final da Missa, recebe uma graça especial : « Ia fazer catorze anos —contará à madre Germana — quando, um dia, durante a acção de graças, me senti irresistivelmente impelida a escolher Jesus como único esposo, e sem demora, uni-me a Ele pelo voto de virginidade. Não dissemos nada, mas entregámo-nos um ao outro amando-nos de uma maneira tão forte que a resolução de ser toda d’Ele se tornou em mim ainda mais definitiva ». Umas semanas mais tarde, de novo no final da Missa, uma indicação é-lhe dada : « Pareceu-me —dirá ela— que a palavra “Carmelo” era pronunciada na minha alma ». Mas a mãe continua a não querer aceitar a sua vocação. Respeitando essa vontade, Isabel, que ainda não atingiu a maioridade, enche-se de paciência. As poesias que escreveu, desde os catorze aos dezanove anos, murmuram os nomes do seu Bem-Amado Jesus, do seu anjo da guarda, dos santos do paraíso, especialmente de Santa Joana d’ Arc, « a virgem que não se deixou manchar ».

As férias decorrem amiúde na montanha, nos Pirenéus, no Jurá, nos Vosges e nos Alpes suíços, ou à beira-mar. Ocasionam momentos para bailar, tocar e fazer excursões. Com a idade de dezoito anos, Isabel começa a escrever um diário íntimo. Ali pode ler-se, com data de 30 de Janeiro de 1899 : « Hoje, tive a satisfação de oferecer ao meu Jesus vários sacrifícios por causa do meu defeito dominante, mas quanto me custou ! Nisso reconheço a minha debilidade… Quando recebo uma observação injusta, sinto o sangue a ferver-me nas veias, de tão revoltada que fico … Mas Jesus estava no meu coração e então sentia-me disposta a tudo suportar por amor a Ele ». Um dia, a mãe, tendo conhecido um bom partido para a filha, propõe-lhe que se case ; mas Isabel reafirma a vontade de entrar no Carmelo. A senhora Catez autoriza-a finalmente a entrevistar-se com a superiora do convento, mas recusa que se torne religiosa antes de atingir a maioridade, aos vinte e um anos.

« Ele está presente ! »

No‌ início de 1899, Isabel lê O Caminho da perfeição de Santa Teresa de Ávila. Nas explicações da santa, reconhece o que o Senhor já lhe havia ensinado acerca da oração. « Isso interessa-me enormemente e faz-me muito bem » —escreve no diário. Busca a presença de Deus na sua alma, e confessa a uma amiga : « Tenho a sensação de que Ele está presente ». O padre Vallée, dominicano que encontra várias vezes no Carmelo, aviva o seu amor por Deus, rico em misericórdia, grande amor (Ef. 2, 4) que nos é oferecido em Jesus. E recorda-lhe que esse Deus de amor, cuja presença ela já sentiu, é Pai, Filho e Espírito Santo ; orienta-a, ainda, para o mistério da Santíssima Trindade, conforme estas palavras de São João : Se alguém me ama, guardará a minha Palavra, e meu Pai o amará, e viremos a ele, e faremos nele a nossa morada (Jo 14, 23).

Sabemos que Deus é Trino graças a Jesus, quem nos revelou esse mistério da vida íntima do Criador. O Catecismo da Igreja Católica ensina o seguinte : « A Encarnação do Filho de Deus revela que Deus é o Pai eterno, e que o Filho é consubstancial ao Pai, quer dizer, que n’Ele e com Ele é o mesmo e único Deus. A missão do Espírito Santo, enviado pelo Pai em nome do Filho e pelo Filho “de junto do Pai”, revela que Ele é, com eles, o mesmo e único Deus. “Com o Pai e o Filho é adorado e glorificado” » (CIC 262, 263). Eis porque a Igreja afirma : « Nós não confessamos três deuses, mas um só Deus em três pessoas… As pessoas divinas não dividem entre Si a divinidade única, cada uma delas é Deus por inteiro …As pessoas divinas são realmente distintas entre Si. “Pai”, “Filho”, “Espírito Santo” não são meros nomes que designam modalidades do ser divino, porque são realmente distintos entre Si… São distintos entre Si pelas suas relações de origem : “O Pai gera, o Filho é gerado, o Espírito Santo procede” » (CIC 253-254). « O fim último de toda a economia divina é a entrada das criaturas na unidade perfeita da bem-aventuranda Trindade. Mas já desde agora nós somos chamados a ser habitados pela Santíssima Trindade » (CIC 260). Esse mistério, do qual viveu Isabel, é a luz da nossa vida espiritual.

Em 1900, Isabel visita a exposição universal de Paris, todavia ela preferiu ocupar o seu tempo nas basílicas do Sagrado Coração de Montmartre e de Nossa Senhora das Vitórias. No decurso dos meses seguintes, Isabel atravessa uma época de secura espiritual, ao ponto de se considerar « insensível como um cavaco ». Não obstante, no meio das festas mundanas guarda a nostalgia do claustro. A uma amiga, mostra a importância da atenção à presença de Deus : « “Deus em mim e eu n’Ele”, que esta seja a nossa divisa ! ».

« Acaso posso abandoná-Lo ? »

Finalmente, o seu ingresso no Carmelo de Dijon fica decidido para o 2 de Agosto de 1901. Quinta-feira, dia 1, Isabel passa uma parte da noite a rezar, querendo acompanhar o Bem-Amado na solidão do Getsémani. A senhora Catez não consegue dormir e vai ajoelhar-se junto da cama da filha. As lágrimas misturam-se : « Por que me abandonas ? —Ah !, querida mamã, acaso posso resistir à voz de Deus que me chama ? Estende-me os braços e diz-me que é desconhecido, ultrajado, abandonado. Acaso posso abandoná-Lo, também eu ?… Devo partir, apesar da tristeza por te deixar, de fazer mergulhar na dor ; devo responder à sua chamada ». No início da sua vida religiosa, Isabel é recompensada com diversas graças : « Como Deus é bom ! —escreve à irmã. Não encontro palavras para expressar a minha felicidade… Aquí, já não há nada, só Ele… Encontramo-Lo em todo o lado, quer estejamos a lavar quer na oracção ». Todos os dias, passa várias horas no coro durante a oração silenciosa da manhã, o ofício, a Missa e também a oração da tarde. Apesar de tudo, não esquece a quem deixou e encontra-os no seu coração perto de Jesus. Para viver com Deus, Isabel refugia-se no silêncio exterior e interior : « Se os meus desejos, temores, alegrias e penas, se todos os movimentos provenientes desses quatro poderes não estão perfeitamente ordenados para Deus, não estarei isolada e haverá ruído em mim ».

Num questionário recreativo, à pergunta « Qual é, para si, o ideal de santidade ? », ela responde : « Viver de amor ». E à pergunta « Qual é o meio mais rápido para o conseguir ? », a sua resposta é : « Tornar-se pequena, entregar-se por completo ». Também perguntam : « Qual é o traço dominante do seu carácter ? —A sensibilidade ». Depois : « Qual é o defeito que mais aversão vos inspira ? —O egoísmo em geral ». A 8 de Dezembro de 1901, a noviça toma o hábito do Carmo e recebe o nome de religiosa : Isabel da Trindade. Pouco tempo depois, a sua facilidade pela oração dá lugar à frieza. Sor Isabel continua a procurar Deus na fé : « A fé diz-me que, apesar de tudo, Ele está aqui, e de que servem as doçuras e as consolações ? Não é Ele. E é somente a Ele que buscamos… Vamos ao Seu encontro com fé pura ». E escreve ainda : « Também eu necessito de procurar o meu Mestre que se esconde. É então que desperto a minha fé e estou mais contente de não fruir da Sua presença para que Ele desfrute do meu amor ».

A obra do Espírito Santo

Sor Isabel lê os escritos de São João da Cruz, de Santa Catarina de Sena e de Santa Teresinha de Lisieux, jovem carmelita falecida pouco tempo antes (1897) que a marca profundamente ; recopiará várias vezes o seu “Acto de oferenda ao Amor Misericordioso”. Todavia, a sua maior fonte espiritual é o Novo Testamento. Já antes de ingressar no Carmelo, tinha uma especial predilecção pelo Evangelho de São João ; depois da sua profissão, nutrir-se-á das cartas de São Paulo e, especialmente, da carta aos Efésios. A madre Germana escreverá : « Os movimentos da sua alma contemplativa apoiam-se nos mais belos textos do grande Apóstolo… Isabel neles descobre o seu sentido profundo, identifica-se com essa doutrina substancial que a fortifica e que alimenta a sua incessante oração ». Esse trabalho espiritual realiza-se sob a influência do Espírito Santo. Nos meses seguintes, a jovem monja é apoquentada por certas dúvidas sobre a sua vocação ; vive momentos de escrúpulos e, na véspera da sua profissão perpétua, foi necessário chamar um sacerdote para a ajudar a dissipar as dúvidas. « Durante a noite que precedeu o grande dia —afirmará—, enquanto me encontrava no coro à espera do Esposo, compreendi que o meu céu começava na terra, o céu na fé, com o sofrimento e a imolação por Aquele que amo ». A 11 de Janeiro de 1903, sor Isabel faz a sua profissão, e a 21, festividade de Santa Inês, virgem e mártir, toma o véu negro das professas.

As dezasseis monjas do Carmelo reúnem-se para as refeições, assim como para os dois momentos de recreio, em que falam com delicadeza e alegria enquanto realizam alguns trabalhos manuais. Mas, no decorrer da jornada, cada irmã faz o seu trabalho — tanto quanto possível — em solidão. Sor Isabel realiza diferentes actividades, sobretudo na rouparia. Sor Maria da Trindade testemunha : « Como vice-prioresa e encarregada, semanalmente, de distribuir as tarefas domésticas, pude constatar que ela era um verdadeiro tesouro em comunidade, uma dessas pessoas a quem podes pedir qualquer tarefa, com a certeza de que o fará com gosto ».

Isabel da Trindade sempre demonstrou uma particular devoção à Virgem Maria. Contempla especialmente o mistério da Anunciação : « Não necessito de fazer qualquer esforço para entrar no mistério da morada divina na Virgem. É como se encontrasse o meu movimento habitual de alma, que foi o seu : adorar em mim o Deus oculto ». O dia da festividade da Apresentação de Maria no Templo, a 21 de Novembro de 1904, redige uma oração que se tornará célebre e que será recuperada após a sua morte : “Oh, Deus meu, Trindade a quem adoro !…”. Do Carmelo, Isabel escreve numerosas cartas, sobretudo à sua irmã, a quem refere as horas precisas para rezar juntas. Escreve igualmente poemas e textos espirituais. Deseja partilhar com todos os amigos esta experiência da presença do Deus-Trino na sua alma : « Essa melhor parte que parece ser privilégio meu na bem-amada solidão do Carmelo, é oferecida por Deus a toda a alma baptizada ». E escreve a uma das suas amigas : « É tão simples ! Ele está sempre connosco ; estai sempre com Ele em todos os vossos actos, nos vossos sofrimentos, quando o vosso corpo se cansa, permanecei sob o Seu olhar, vede-O presente, vivo na vossa alma ». Segundo Isabel, para viver esta realidade basta « realizar actos de recolhimento na Sua presença ».

Um novo nome

Em 1905, uma passagem de São Paulo marca-a profundamente : Deus Pai predestinou-nos para sermos Seus filhos adoptivos por meio de Jesus cristo, por Sua livre vontade, para fazer resplandecer a Sua maravilhosa graça, pela qual nos tornou agradáveis em Seu amado Filho (Ef 1, 5-6). No decurso dos meses seguintes, medita esse texto e adivinha o novo nome que terá no Céu : laudem gloriæ (louvor de glória). O louvor de glória converte-se no centro da sua espiritualidade : « O meu sonho —escreve— é ser louvor da Sua glória. Li isso em São Paulo, e o meu Esposo disse-me que era essa a minha vocação desde o exílio ». Sor Isabel começa a assinar as cartas com as palavras Laudem gloriæ. Para ela, ser louvor de glória consiste em reflectir a glória de Deus, e para isso é necessário esquecer-se de si mesmo, despojar-se de tudo e procurar o silêncio. Esse esquecimento e esse silêncio favorecem a adoração e a contemplação que permitem a Deus transformar a pessoa, restaurar nela a sua imagem e realizar o seu louvor de glória.

A partir da Primavera de 1905, Isabel começa a sentir os primeiros sintomas da doença de Addison, uma insuficiência supra-renal muito dolorosa e, na época, incurável. A 19 de Março de 1906, ingressa na enfermaria. « Dia após dia fico mais débil—escreve—, e sinto que o Mestre não tardará muito em levar-me consigo. Provo e experimento gozos desconhecidos : os gozos da dor… Antes de morrer, sonho em ser transformada em Jesus crucificado e isso dá-me muita força no sofrimento ». Isabel da Trindade vê na doença a possibilidade de parecer-se com Jesus cristo, o qual também quis passar pelo sofrimento (cf. Lc 24, 26), e devolver-Lhe desse modo amor por amor. Por isso chama à sua doença a “doença do amor”.

No domingo de Ramos, sor Isabel sofre uma síncope e recebe a Unção dos Doentes, a sua saúde melhora um pouco no sábado seguinte. Organiza o retiro “O Céu na fé”, para a sua irmã Guita, e depois faz o seu retiro pessoal. A madre Germana pede-lhe que escreva, durante esse retiro, os seus “bons encontros” ; o manuscrito chamar-se-á “Último Retiro”. Nele desenvolve especialmente uma meditação sobre a Virgem Maria, descrevendo-a como modelo a seguir na vida interior, mas também no sofrimento. Pouco tempo antes de morrer, Isabel dá como testamento o seguinte a uma amiga : « À luz da eternidade, a alma vê as coisas do ponto de vista correcto. Oh, como é vazio tudo o que não foi feito por Deus e com Deus ! Rogo-vos, assinalai tudo com o selo do amor. É a única coisa que permanece ». No decurso do Outono, a doença agrava-se, e sor Isabel morre a 9 de Novembro de 1906, após nove dias de agonia. As suas últimas palavras inteligíveis foram : « Vou para a Luz, para o Amor, para a Vida ! ». Foi canonizada pelo Papa Francisco a 16 de Outubro de 2016.

Pouco tempo antes de falecer, Isabel da Trindade escrevia : « Confio-Vos o que fez da minha vida um céu antecipado : crer que um Ser, que se chama Amor, habita em nós dia e noite e nos pede que vivamos em união com Ele ». O seu desejo mais caro é atrair-nos para essa intimidade divina : « Parece-me que a minha missão no Céu será atrair as almas ajudando-as a sair delas mesmas para aderirem a Deus mediante um movimento muito simples e cheio de amor, assim como conservá-las nesse grande silêncio interior que permite que Deus se imprima nelas e que as transforme n’Ele mesmo ». Possamos nós descobrir esse tesouro escondido e viver dele ! ».

Dom Antoine Marie osb