Carta

Blason   Abadia de São José de ​​Clairval

F-21150 Flavigny-sur-Ozerain

France


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25 Maro 2018
Domingo de Ramos


Caro amigo da Abadia de São José

Santo António de Lisboa, também conhecido como Santo António de Pádua por estar sepultado nesta cidade do norte da Itália, é um « dos santos mais populares de toda a Igreja Católica. Venerado não só en Pádua, onde se erigiu uma bela basílica onde repousam os seus restos mortais, mas no mundo inteiro. Os fiéis veneram com fervor as imagens e as estátuas que o representam com o lírio, símbolo da sua pureza, ou com o Menino Jesus ao colo…, recordando uma milagrosa aparição mencionada por algumas fontes literárias. Santo António contribuiu de modo significativo para o desenvolvimento da espiritualidade franciscana com os seus extraordinários dotes de inteligência, de equilíbrio, de zelo apostólico e, principalmente, de fervor místico (Bento XVI, Audiência geral de 10 de Fevereiro de 2010).

O futuro Santo António nasceu a 15 de Agosto de 1195, em Lisboa, e recebeu, no Baptismo, o nome de Fernando. O pai, Martinho de Bulhões, descendente de Godefroy de Bouillon, destina-o ao ofício das armas. Passa a infância junto de sua mãe, Dona Teresa, profundamente afectuosa e dedicada para com os seus e com enorme precupação em ser-lhes agradável. Transmite ao filho uma profunda devoção à Virgem Santíssima. Deste modo, cultiva na sua alma virtudes como a doçura, a humildade, o amor ao sacrifício, que o farão merecedor do amor de todos. Mais tarde, escreverá : « É manso quem não tem a alma irada e quem, na simplicidade da sua fé, está disposto a suportar com paciência qualquer ofensa. O mundo à minha volta agita-se contra mim, mas eu, no meu coração, conservo a paz ». Até à idade de quinze anos, segue os estudos na escola capitular de Lisboa. Um dia, encontrando-se ajoelhado nos degraus do altar, apareceu-lhe o demónio com uma forma aterradora. Com uma fé intrépida, o jovem traça uma cruz no solo, cuja marca ficou impregnada no mármore, que se tornou maleável ao contacto da sua mão tão débil mas tão pura. O efeito é imediato : o demónio desapareceu no mesmo instante. Essa cruz é, ainda hoje, visível na catedral.

As três armas

Em 1210, o adolescente de quinze anos manifesta o desejo de ser religioso e obtém dos pais a autorização para ingressar nos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, cujo mosteiro de São Vicente de Fora se situava às portas da cidade. O estilo de vida aí praticado é o adequado ao jovem Fernando : oração, leitura espiritual e trabalho são, segundo os seus mestres, as três armas com as quais se pode vencer o demónio. Após professar votos, em 1212, pede para ser transferido para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Desta forma, afastando-se dos amigos e familiares, espera encontrar uma maior tranquilidade de espírito e paz interior para se dedicar aos estudos, servir a Deus e progredir na vida religiosa. No mosteiro de Coimbra, centro cultural de grande fama em Portugal, consagra-se ao estudo da Bíblia e dos Padres da Igreja. Com uma memória privilegiada retém de uma forma fiel tudo o que lê e, em pouco tempo, dá provas de um conhecimento excepcional da Sagrada Escritura. Ao mesmo tempo, o seu coração mantém-se firme no amor às virtudes cristãs. Torna-se mais humilde, mais unido a Deus. Numa ocasião, durante a Missa conventual, enquanto velava por um noviço enfermo, Fernando ouve a campainha que anuncia a consagração. O seu coração lança-se para o seu amado Senhor, que, nessa manhã, o obriga a permanecer longe da igreja. Cai de joelhos e adora em espírito a Cristo, que se torma sacramentalmente presente (Catecismo da Igreja Católica, 1353, 1357) : « Oh, Jesus ! Que felicidade se pudesse transportar-me para junto do vosso altar ! ». Com estas palavras, o jovem religioso tem uma visão, e observa o sacrário iluminado com uma claridade celestial enquanto o sacerdote eleva a Sagrada Hóstia.

Fernando, já sacerdote, exerce no mosteiro o cargo de porteiro. Deste modo, toma contacto com uma pequena comunidade de frades, procedente de Assis, Itália, fundada por frei Francisco. Como modelo de vida, praticam a pobreza e pregam sem subtilezas o Evangelho. Instalados na ermida de Santo Antão, na colina de Olivares, descem e pedem esmola no mosteiro. Em 1220, expõem, em Coimbra, as relíquias dos cinco primeiros missionários franciscanos, que tinham sido enviados a Marrocos, onde sofreram o martírio. Este exemplo suscita em Fernando o desejo de os imitar e de progredir no caminho da perfeição cristã. Deixa então os cónegos agostinhos para envergar o burel franciscano e adopta o nome de António. Se entra para os franciscanos é com esperança de partir para terras muçulmanas, a pregar o Evangelho e aí sofrer o martírio. Efectivamente, a partida de frei António, acompanhado de outro frade, teve lugar em Dezembro de 1220. Mas à chegada a Marrocos, ficam os dois enfermos, pelo que o seu regresso é decidido ao fim de alguns meses. Durante a travessia, uma violenta tempestade empurra a embarcação até às costas da Sicília. Uma vez ali, junto do estreito de Messina, o jovem português de vinte e seis anos toma contacto com Itália, que virá a ser a sua pátria adoptiva. De Messina parte para Assis, onde assiste ao célebre « Capítulo das esteiras » (capítulo geral dos Frades Menores), que decorre pelo Pentecostes de 1221, na presença de cinco mil frades.

Uma nova estrela

Após o capítulo, o Provincial da Romanha, frei Graciano, incumbe frei António de celebrar Missa na ermida de Montepaolo, nos Apeninos, pois os frades sacerdotes são escassos no começo da Ordem Franciscana. Ali encontra um lugar de silêncio, um “deserto do espírito” aonde Deus o conduz para lhe falar ao coração e familiarizá-lo com o espírito franciscano. António reza numa gruta, jejua a pão e água e dedica-se, como os demais frades, às mais humildes tarefas. Na humildade, espera a hora de Deus, já que, desde a sua tentativa interrompida de pregar o Evangelho em Marrocos, nada ousou empreender. A vontade de Deus manifesta-se no ano seguinte, em 22 de Setembro de 1222. Frei António participa, com outros franciscanos e alguns dominicanos, numa ordenação sacerdotal na cidade de Forli. Convidados a fazer a exortação espiritual do costume, os Frades Pregadores recusam com o pretexto de que não lhes é permitido improvisar. Alguém se dirige então a frei António, o qual, impelido pelo espírito de obediência, desenvolve argumentos de peso e concisos sobre a ordenação ; a sua exposição é escutada com atenção, assombro e alegria. Graciano escreve nessa mesma noite a Francisco de Assis : « No firmamento franciscano acaba de aparecer uma nova estrela ! ». O provincial confia então ao joven religioso a missão de pregar em toda a Romanha, especialmente em Rímini, onde a fé e a unidade dos cristãos se vêem ameaçadas pela heresia cátara. Desse modo começa em Itália, e depois em França, uma actividade apostólica intensa e eficaz que é motivo do regresso de numerosos hereges ao seio da Igreja.

Para os cátaros mais recalcitrantes, a criação emana de dois princípios eternos : um bom e um mau. Do primeiro procede o mundo invisível dos espíritos e das almas ; do segundo procede a matéria que é radicalmente má. Para os cátaros mais moderados, o princípio mau que domina o mundo da matéria não é um deus mau, mas Lúcifer, o anjo caído. Para todos, posto que a matéria é má, o ideal é libertar as almas do seu jugo, o que supõe especialmente a condenação do matrimónio, o qual, mediante a procriação, tende a encerrar as almas na matéria. A Cruz de Cristo e a Eucaristia, que são materiais, são também, para eles, um escândalo e uma pedra de tropeço (cf. 1 Co 1, 23 e CEC 1336). Em Rímini, um burguês com o nome de Bonvillo é um dos mais incrédulos, faz escárnio de frei António e diz-lhe : « Demonstra-me através de um milagre que a Eucaristia é realmente o Corpo de Cristo e juro-te que me converterei imediatamente ». Confiando plenamente no Espírito Santo, o discípulo de São Francisco aceita a aposta. « Pois bem — lança Bonvillo —, tenho uma mula. Mantê-la-ei encerrada sem alimento durante três dias e, depois, levá-la-ei à praça da igreja. Ali, apresentar-lhe-ei um alqueire de aveia ; tu levarás uma hóstia consagrada. Se o meu animal, recusando o meu grão, se inclinar diante da hóstia, então também eu curvarei o meu intelecto diante do mistério que ensinas ». Frei António concorda, e também se submete a um jejum tão rigoroso como o do animal. No dia previsto, a praça está a abarrotar de gente : o frade sai da igreja com um ostensório. Bonvillo arrasta penosamente a sua mula cambaleante, depois apresenta-lhe a aveia. Então, frei António exclama : « Animal desprovido de razão, vem prostrar-te diante do teu Criador ! ». E, imediatamente, a mula, afastando-se da aveia, ajoelha-se diante da hóstia e permanece imóvel, com a cabeça baixa, até que o frade lhe ordena que se levante. Então, dirige-se directamente para o alqueire e devora avidamente o conteúdo. É fácil de imaginar o espanto dos cátaros ! Depois de Bonvillo, a maior parte deles abjura da sua heresia. O facto, reconhecido como verdadeiro, é retomado pelos biógrafos modernos do santo.

Os mais pequenos

Desejando que os seus filhos espirituais sejam, na Igreja, os mais pequenos, os Frades Menores, e recordando a frase de São Paulo a ciência incha (1 Co 8, 1), São Francisco de Assis não era nada partidário, nos começos, de um ensino teológico aprofundado no seio da sua Ordem. Não obstante, face ao alcance da heresia cátara, cedo compreendeu a necessidade de uma sólida formação teológica. Esses estudos permitiriam aos frades conhecer melhor e dar a conhecer o ensino de Cristo e da Igreja. Depois de reconhecer em frei António o religioso mais apto para conciliar a ciência com as exigências de devoção e de humildade requeridas pela Regra, Francisco escreve-lhe o seguinte : « Compraz-me que ensines aos frades a santa teologia. Apesar de tudo, está vigilante para que o espírito de oração não se apague nem em ti nem neles ». Enviado a Bolonha, frei António assenta as bases da teologia franciscana que, cultivada por outros eminentes pensadores, conhecerá o seu apogeu com São Boaventura e com o beato Duns Scot.

O nascimento de Cristo em Belém e a contemplação do Crucificado inspiram a frei António pensamentos de agradecimento a Deus e de estima pela dignidade da pessona humana. Escreve : « Cristo, que é a tua vida, está suspenso diante de ti, para que olhes para a Cruz como para um espelho. Lá, poderás ver até que ponto as tuas feridas foram mortais : nenhum remédio teria podido curá-las, a não ser o Sangue do Filho de Deus. Se reflectires um pouco, poderás dar-te conta de quão grandes são a tua dignidade humana e o teu valor… Em nenhuma outra circunstância pode o homem dar-se conta do seu valor senão olhando-se no espelho da Cruz ».

Em 1224, frei António é enviado a França, a Montpellier, para ensinar teologia aos jovens religiosos da sua Ordem. Ali, elabora um comentário dos Salmos. Um noviço, que ambiciona esse tesouro de ciência e impelido pelo diabo, rouba o manuscrito e foge. O autor do precioso texto perde assim o fruto das suas vigílias e trabalhos. A comunidade deplora a partida de um dos seus filhos, o qual, fugindo como um ladrão, abandona a vocação pondo a alma em perigo. Frei António suplica a Nosso Senhor que suscite remorsos na alma do culpado e, sem demora, o fugitivo reaparece, confuso e arrependido : prostra-se aos pés do santo e pede uma justa penitência. Uma vez perdoado, recupera o seu posto no noviciado com entusiasmo redobrado. A devoção popular apropriou-se deste episódio e começou a atribuir a Santo António o poder de encontrar os objectos perdidos. São Francisco de Sales respondeu assim a um trocista que escarnecia deste costume : « Verdadeiramente, senhor, tenho vontade de que juntos façamos uma promessa a este santo para encontrar o que perdemos todos os dias : vós, a simplicidade cristã, e eu, a humildade cuja prática descuido ».

O concílio de Bourges

Frei António foi depois enviado a Toulouse, a Puy-en-Velay e a Limoges, onde fundou comunidades das quais veio a ser o superior. Em Novembro de 1225, convidam-no a assistir ao concílio provincial de Bourges. O objectivo dessa reunião, presidida por um legado do Papa, é encontrar uma maneira de devolver a paz ao Languedoque, agitado pelos albigenses (cátaros da região de Albi) e pelas querelas entre os príncipes. A frei António encarregam que pregue diante das autoridades religiosas e civis do reino. Sem respeito humano, denuncia as causas profundas do conflito que assola o Languedoque : causas religiosas, devidas aos procedimentos dos albigenses ; causas sociais, provocadas pela sede de riquezas e de honras dos príncipes do reino, ao mesmo tempo que a maioria dos súbditos vive na pobreza ; enfim, causas morais, que segundo ele não são menos importantes : fustiga os maus exemplos dados por alguns membros da nobreza, mas também do clero. Tendo de súbito conhecido por revelação divina o estado da conciência de Simão de Sully, arcebispo de Bourges, reprova, com sólidos argumentos bíblicos, a vida mundana e luxuosa dos bispos, lançando invectivas contra os que, de entre eles, não souberam ou não quiseram proteger as suas ovelhas dos perigos do erro. Comovido por estas palavras incendiárias, Simón de Sully reconhece as suas faltas numa confissão sincera. Chegará a ser o famoso prelado em quem o Papa e o rei São Luís depositarão a sua confiança.

De regresso a Assis em 1227, frei António é nomeado provincial do norte de Itália, cargo que exercerá até ao Pentecostes de 1230. Durante este período, viaja regularmente a Pádua, cidade próxima de Veneza : a fé dos seus habitantes impressiona-o, e liga-se a eles por um laço de profundo afecto. Uma vez liberto do governo dos frades, junta-se a um grupo de dominicanos e beneditinos encarregues pelo Papa Gregório IX de trabalhar para a reforma do clero e dos religiosos promovida pelo IV Concílio de Latrão (1215). Durante o Verão desse ano de 1230, recebe dos superiores a missão de se dirigir a Roma para solicitar ao Papa que instaure um debate aberto no interior da Ordem sobre a prática da pobreza. Depois da morte do fundador (em 1226), alguns frades querem viver uma pobreza estritamente fiel à letra da Regra, enquanto que outros, para dar resposta às novas situações, desejam suavizar esse rigor julgado excessivo. O Papa decidirá em favor destes últimos. Por esta ocasião, frei António foi levado a pregar diante do Santo Padre, o qual, admirando os seus conhecimentos das Escrituras, exclama : « Chamar-se-á Arca do Testamento e divino depositário das Sagradas Escrituras ».

« Um diálogo afectuoso »

No decurso do último período da vida, frei António redige duas series de Sermões. Trata-se de « textos teológicos que evocam a pregação viva e nos quais propõe um verdadeiro itinerário de vida cristã. A riqueza de ensinamentos espirituais contida nos Sermões é tão grande que o venerável Papa Pio XII, em 1946, proclamou Santo António Doutor da Igreja, atribuindo-lhe o título de “Doutor evangélico”, porque nos referidos escritos emanam a frescura e beleza do Evangelho ». Neles, Santo António fala « da oração como uma relação de amor, que impele o homem a um diálogo afectuoso com o Senhor, criando uma alegria inefável, que suavemente envolve a alma na oração. Santo António recorda-nos que a oração necessita de uma atmosfera de silêncio… é uma experiência interior, que visa eliminar as distracções provocadas pelas preocupações da alma, criando o silêncio na própria alma ». Segundo os seus ensinamentos, a oração articula-se em quatro atitudes indispensáveis : « Abrir confiadamente o próprio coração a Deus ; é este o primeiro passo da oração : não simplesmente captar uma palavra, mas também abrir o coração à presença de Deus ; depois, conversar afectuosamente com Ele, vendo-O presente consigo ; e depois, algo muito natural, apresentar-Lhe as necessidades ; por último, louvá-Lo e dar-Lhe graças. Neste ensinamento de Santo António sobre a oração observamos uma das características específicas da teologia franciscana, de que ele foi o iniciador, a saber : o papel dedicado ao amor divino, que entra na esfera dos afectos, da vontade, do coração, e que é também fonte donde brota um conhecimento espiritual que ultrapassa todo o conhecimento. De facto, quando amamos, conhecemos. Escreve também Santo António : “A caridade é a alma da fé, dá-lhe vida ; sem o amor, a fé morre” » (Bento XVI, Audiência geral de 10 de Fevereiro de 2010).

Pela Quaresma de 1231, o bispo de Pádua encarrega frei António que pregue todos os dias aos habitantes e ao clero da cidade. Apesar do cansaço motivado por certa corpulência e por enfermidades, o célebre religioso manifesta um zelo infatigável pela salvação das almas, pregando e depois confessando até à noite. As igrejas tornaram-se demasiado pequenas para acolher as multidões que acudiam a escutá-lo. Por o número ser cada vez maior — até 30.000 pessoas —, as pregações começam a ser feitas em lugares públicos. Frei António, aponta o Papa Bento XVI, « conhece bem os defeitos da natureza humana, a nossa tendência para pecar ; eis porque exorta continuamente o combate contra a inclinação para a avareza, o orgulho, a impureza e, em contrapartia, a prática das virtudes da pobreza, generosidade, humildade, obediência, castidade e pureza. Nos princípios do século xiii, no contexto do desenvolvimento das cidades e florescimento do comércio, cada vez era maior o número de pessoas insensíveis às necessidades dos pobres. Por esse motivo, Santo António repetidamente convida os fiéis a pensar na verdadeira riqueza, a do coração, que fazendo-nos ser bons e misericordiosos faz com que acumulemos tesouros no céu » (ibid.). « Oh ricos —exclama o nosso santo —, tomai como amigos os pobres, e depois serão eles quem vos acolherão nos tabernáculos eternos, onde residem a beleza da paz, a confiança da segurança e a opulenta calma da eterna saciedade ». Noutro sermão, para afastar os pecadores do inferno, Santo António descreve o preço que teremos de pagar pela avareza e a luxúria, vícios que considera como os mais frequentes. A propósito da parábola das bodas do filho do rei, comenta a sentença do rei ao convidado que não ia vestido com roupa nupcial : Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o nas trevas exteriores (Mt 22, 13). Ali haverá choro, dos olhos que se extraviam na vaidade, e ranger de dentes que fruíram na voracidade e devoraram os bens dos pobres ».

Um último canto de amor

Após as pregações de frei António, as confissões são muito numerosas ao ponto de os sacerdotes presentes não serem suficientes para as atender. O Santo obtém dos magistrados de Pádua a libertação dos devedores insolventes encarcerados a pedido dos usurários até ao reembolso das dívidas. Mas, tantos esforços acabam por esgotar o seu corpo, já de si debilitado por doenças e os jejuns. Em Maio, recebe autorização para se etirar para um lugar aprazível a norte de Pádua, onde lhe construiram um abrigo entre a ramagem duma nogueira para que possa recolher-se e preparar-se para ver a Deus face a face (1 Co 13, 12). Em 13 de Junho, sentindo que as forças o abandonam, pede que o levem para o convento de Pádua. Ao chegar às portas da cidade, está tão débil que tiveram de se deter no convento das irmãs clarissas de Arcella, onde recebe a bênção dos enfermos. Ainda se esforça por cantar à sua Rainha, a Virgem Maria, um último canto de amor, depois o rosto ilumina-se : declara ver o seu Senhor Jesus que o chama a Si.

Na sua sepultura, os episódios de entusiasmo que acompanhavam as suas pregações renovam-se. Os milagres multiplicam-se e o fervor popular aumenta dia após dia, ao ponto de o bispo e as autoridades civis de Pádua decidirem enviar uma delegação para pedir ao Papa a canonização de frei António. No decurso do processo, são reconhecidos cinquenta e três milagres atribuídos à sua intervenção. Em 30 de Maio de 1232, quer dizer, somente um ano após a sua morte, prazo excepcionalmente curto, Gregório IX proclama a santidade de António de Lisboa.

Seguindo o exemplo do santo, inspiremo-nos na exortação de São Pedro : « no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça » (1 P 3, 15). 

Dom Antoine Marie osb