Carta

Blason   Abadia de São José de ​​Clairval

F-21150 Flavigny-sur-Ozerain

France


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10 Julho 2020
festa de santo Anjo de Portugal


Caro amigo da Abadia de São José

Um dia de 1663 ou 1664, o infante de Portugal, D. Pedro, herdeiro da coroa, acompanhado dos seus pajens, apresenta-se à porta do noviciado dos jesuítas de Lisboa ; todos os noviços se precipitam para acolher o ilustre visitante, excepto João de Brito. Este, que, na qualidade de pajem, tinha acompanhado o futuro rei, chega finalmente, com um avental à cintura, pois estava ocupado a fazer curativos a um empregado da comunidade vítima de uma epidemia. «  Estou encantado — exclama o príncipe estusiasmado — de vos encontrar ao serviço deste novo mestre ! Encontrareis recompensas mais sólidas do que aquelas que poderíeis alçançar ao meu lado… ».

João de Brito nasceu a 1 de Março de 1647, no seio de uma família da alta nobreza de Portugal. O pai, D. Salvador de Brito Pereira, será vice-rei do Brasil. Por causa de graves problemas de saúde, o menino foi devotado pela mãe, Dona Beatriz, a São Francisco Xavier, o grande missionário jesuíta das Índias e do Japão, a fim de obter a cura. A partir dos nove anos de idade, João foi introduzido como pajem na corte de Lisboa. Na adolescência destacava-se pela sua pureza angélica, posta à prova no meio de jovens ricos e nobres. Por outro lado, o espectáculo da corte leva-o a desprender-se do mundo, de tal forma que, a 17 de Dezembro de 1662, com a idade de dezasseis anos, ingressa na Companhia de Jesus. A mãe, a pesar de dolorosamente surpreendida, aceita com fé a sua decisão. Durante os estudos de filosofia, em Coimbra (1666-1669), João pede ao Geral da Companhia de Jesus que o mande para as missões das Índias, pois, segundo afirma, « foi São Francisco Xavier quem me curou, é ele quem me chama às Índias ». Foi ordenado sacerdote em Lisboa, em Fevereiro de 1673, e os superiores destinam-no a Maduré, região do sudeste da Índia. Apesar da oposição da mãe e das opiniões desfavoráveis dos médicos, o jovem jesuíta deixa Lisboa no mês de Março, na companhia de vinte e sete confrades, sob a direcção do padre Baltasar da Costa, um veterano da missão indiana.

Missionário por natureza

«Jesus, o primeiro e maior evangelizador, chama-nos continuamente a anunciar o Evangelho do amor de Deus Pai com a força do Espírito Santo — recordava o Papa Francisco… De facto, a Igreja é missionária por natureza ; se não fosse, não seria a Igreja de Cristo, mas apenas uma associação no meio de muitas outras que, depressa, terminaria por esgotar o seu propósito e desapareceria… A missão da Igreja, destinada a todas as pessoas de boa vontade, está fundada na força transformadora do Evangelho. O Evangelho é a Boa Nova que traz consigo uma alegria contagiante, porque contém e oferece uma vida nova : a vida de Cristo ressuscitado, o qual, comunicando o seu Espírito vivificante, torna-se para nós Caminho, Verdade e Vida (cf. Jo 14, 6)… Ao seguir Jesus como nosso Caminho, fazemos a experiência da Verdade e recebemos a sua Vida, que é plena comunhão com Deus Pai na força do Espírito Santo, que nos liberta de toda a forma de egoísmo e é fonte de criatividade no amor » (Mensagem de 4 de Junho de 2017, na Jornada Mundial das Missões).

Os missionários chegam em Setembro a Goa, possessão portuguesa na costa oeste da Índia. Uma vez ali, João dirige-se de seguida, em acção de graças, à capela onde se venera o corpo miraculosamente incorrupto de São Francisco Xavier. Aprende rapidamente a língua tamil e, no ano seguinte, parte para Maduré. O jovem missionário começa pela familiarização com o país, dum modo especial com o hinduísmo e a estrutura social das castas, com regras rígidas e complicadas. Apercebe-se da importância de se familiarizar com a casta superior, a dos bramas, como uma das principais chaves da conversão do país ; mas o seu ardor leva-o também junto dos marginalizados, os párias ou excluídos, a quem visita preferentemente de noite. Com a finalidade de pregar o Evangelho aos letrados tem em conta os elementos positivos de sabedoria contidos nos Veda, João estuda os livros sagrados da Índia, compostos em sânscrito. Da mesma forma que o seu predecessor, o padre Roberto de Nobili, falecido em Maduré uma quinzena de anos antes da sua chegada, adopta algumas regras de vida ascética dos religiosos hindus, desde que não choquem com a mensagem cristã. Inclusive veste o “Pandara swami”, a vestimenta distintiva dos que renunciam ao mundo. Esta austeridade parecerá excessiva a vários dos seus confrades, e reprovam-lhe também o facto de praticar certos ritos hindus. Não obstante, na ocasião do seu processo de beatificação, o Papa Bento XIV o ilibará de qualquer suspeita sobre este assunto « Esses costumes são somente de uso comum da vida civil, e portanto sem significado religioso particular ».

Salvo pela caridade

Apesar da sua delicada saúde, João de Brito recusa utilizar o cavalo que lhe oferecem, e faz as suas deslocações a pé. Arroz, de manhã e à noite, é a base da sua alimentação. Em 1676 e 1677, graves inundações fizeram numerosas vítimas e danos consideráveis. As missões não se livram disso e os padres vêem-se obrigados a mudar várias vezes de lugar, começando sempre do nada. Além disso, a guerra faz continuamente estragos, acompanhada de fomes e perseguições contra os cristãos. No decurso de uma epidemia de peste, os devotos de Shiva, uma das três principais divindades da Índia, tentam sublevar o povo contra o missionário fazendo-o responsável do flagelo, mas a caridade do Padre, que faz curativos aos empestados, consegue evitar o pior.

Os missionários recebem ajuda de numerosos catequistas indígenas. Os fiéis estão dispersos pela região, mas corajosos e perseverantes ; às vezes deslocam-se sessenta quilómetros a pé para receber os sacramentos. A pregação de João é acreditada com milagres, como, por exemplo, a ressurreição de um menino baptizado, que tinha sido atingido por um raio. « Essas graças são tão frequentes que os nossos cristãos familiarizam-se com elas » — constata o missionário. Todavia, facilitam enormemente a missão, nomeadamente no que respeita à abolição da poligamia, então comum entre as elites do país, e que constitui um grande obstáculo à evangelização. Não obstante, produzem-se conversões, com a condição de abandonarem a poligamia. Mas a feroz oposição das autoridades pagãs à pregação do Evangelho obriga o padre Brito a deslocar-se e a evangelizar, durante seis meses, noutra região da Índia. Durante o ano seguinte ao seu regresso, baptiza 1200 pessoas. Dois anos mais tarde, com a idade de trinta e oito anos, foi nomeado superior da missão de Maduré (de 1685 até 1686). Calúnias contra ele chegam a Roma, fazendo com que o padre superior o afaste da missão, mas uma providencial mudança de Provincial permite-lhe permanecer em Maduré. Um dos seus missionários dirá dele: « Multiplicou o número de cristãos… Após ser nomeado superior, apenas aproveitou dos seus poderes para aliviar os irmãos, sobrecarregando-se a si mesmo. Reserva sempre para si as tarefas mais penosas ». Procurado sempre pelos pagãos, deve levar uma vida semiclandestina, no meio de um clima de perseguição e de guerra civil : há cristãos mártires, e outros que morrem de miséria na selva, para onde tiveram de fugir. Não obstante, também chegam auxílios inesperados por parte de pagãos simpatizantes.

Em 1686, o êxito do padre na evangelização de Maravar, reino próximo a Maduré, indigna os brâmanes, que maquinam assassiná-lo. Um destacamento de homens a soldo destes dirige-se para uma recentíssima comunidade cristã onde se encontra o padre. João e os catequistas são espancados, algemados e encarcerados. Prometem-lhes a liberdade se aceitarem adorar Shiva ou simplesmente receber a imposição de cinzas de Shiva na fronte, gesto que seria, de facto, uma apostasia, mas recusam-no unanimemente. O padre João de Brito é condenado à morte por ter pregado uma religião estrangeira e ter-se negado a invocar o deus hindu. Nesse mesmo dia, foi flagelado, deixando-o quase morto. Um pagão misericordioso faz alguns curativos, e os cativos são reconduzidos à prisão. A sentença de norte é de novo promulgada. Os condenados recitam então um rosário em acção de graças. O padre preocupa-se com a possibilidade de isso provocar muitas desgraças nos neófitos da região : « Não temais nada dos homens — manda-lhes dizer — (cf. Lc. 12, 4s), pois o Pai celeste cuidará de vós. Se permite que vos atormentem, primeiro dar-vos-á coragem e, depois, a glória eterna ». A 30 de Julho de 1686, João consegue enviar uma carta ao seu superior jesuíta : « Estamos felizes e bendizemos a Vontade divina que se digna conceder-nos a graça de derramar o nosso sangue pela sua santa Lei ». Os prisioneiros permanecem cativos durante um mês nos estábulos reais. Com a pretensão de aproveitar-se do estado de esgotamento do padre, os brâmanes desafiam-no a participar nuns debates teológicos, mas depressa tiveram de abandonar o desafio. Finalmente, os prisioneiros foram libertados, sem que ninguém soubesse porquê.

Extrema surpresa

Os superiores do padre João decidem então enviá-lo a defender os interesses da missão das Índias junto da corte de Lisboa. Mas antes deveria passar por Goa para negociar com as autoridades portuguesas alguns pontos delicados do direito de patronato sobre as missões das Índias, direito concedido outrora pela Santa Sé ao rei de Portugal. Fracassadas as negociações, o padre embarca para a Europa, chegando a Lisboa em Setembro de 1687. A notícia da sua condenação à morte tinha-se espalhado, pelo que a multidão que veio acolher o barco ficou extremamente surpreendida ao vê-lo desembarcar. Os relatos do missionário suscitam tal entusiasmo por todo o lado que vários sacerdotes e estudantes oferecem-se para o seguirem para a Índia : « Não podemos fechar todos os colégios para dar satisfação a esses nobres desejos ! » —exclama um dos superiores da Companhia de Jesus. O padre visita o rei D. Pedro II, o qual, impressionado ao ver o amigo de infância convertido num missionário envelhecido e marcado pelas torturas sofridas, tenta que fique em Portugal para lhe confiar a educação dos seus filhos. O missionário recusa, alegando que as necessidades são muito maiores na Índia. Por ocasião dos sermões que lhe pedem, com frequência insiste no escândalo que provoca a má conduta de alguns portugueses na Índia : quando estes não actuam com justiça, desinteresse e lealdade, afirma, toda a proclamação do cristianismo é percebida como hipócrita. A sua palavra arrasta numerosas conversões, pois a sua virtude, longe de ser austera, atrai mediante a sua doçura e extraordinária afabilidade.

O temor das honras

O missionário faz-se novamente ao mar a 19 de Março de 1690, na companhia de dezanove religiosos, a maioria já sacerdotes. Ao chegar a Goa, em Novembro, recebe um acolhimento triunfal. Três meses mais tarde, dirige-se a Maduré, onde retoma o seu apostolado itinerante ; por prudência, nunca permanece muito tempo no mesmo lugar. Mas o rei de Portugal não desistiu da sua ideia, e tenta, junto do Geral dos Jesuítas, que João regresse a Portugal, mas em vão. O rei planeia, então, elevá-lo à dignidade de arcebispo, na Índia, mas o padre, que teme mais as honras que as perseguições, consegue que se anule o projeto. Então, os seus superiores locais confiam-lhe a visita trienal de Maduré, onde a perseguição é intensa. Escreve a um irmão coadjutor : « Reza muito por mim, pois este país é um campo de acção muito árduo. Necessito muito do auxílio especial do Céu para ter êxito. As conversões anunciam-se numerosas, mas mais numerosos são aqueles que me aguardam para receber os sacramentos. Se me aprisionam novamente, sei muito bem que desta vez não escaparei à morte ». Tem sempre presente um pensamento : « Nada terei feito por Deus enquanto não tiver derramado a última gota do meu sangue » ; todavia, tenta agir com prudência.

Após chegar a uma zona de conflitos, percorrida sem cesar por soldados, teve de viver nos bosques : « Há já quatro meses que me encontro desterrado num bosque, vivendo no meio dos tigres e das serpentes que aqui existem em grande número. A minha morada é numa árvore » —confessa a um bispo. Encontra, todavia, a maneira de manter correspondência com os superiores e outras pessoas. Numa localidade, em quinze dias, atende mil pessoas em confissão e baptiza quatrocentos catecúmenos bem preparados. Aproveitando uma trégua nos combates e perseguições, baptiza oito mil catecúmenos no prazo de dezoito meses. Teve também de regularizar matrimónios, reconciliar apóstatas, etc. As conversões multiplicam-se até nas castas mais altas e entre os parentes do rei ; mas, esse mesmo facto leva a que os perigos aumentem. « No segundo domingo da Quaresma — escreve o padre a um confrade — tentaram capturar-me, mas tinha partido meia hora antes da chegada dos inimigos. Prenderam um cristão baptizado a quem espancaram e infligiram-lhe maus tratos para o forçar a renegar a fé. Graças a Deus, o neófito permaneceu inquebrantável ». E a outro confrade : « Confesso, baptizo e administro os sacramentos mais que nunca. De todas as partes pedem-me catequistas. Oh padre !, comparado com tudo isto, o  que são todas as grandezas da Europa ? ». Todavia, os neófitos estão assustados pela permanente ameaça da perseguição, pelo que João de Brito procura uma ocasião para se reunir com o rei de Maravar a fim de obter um édito de tolerância.

Uma ofensa pessoal

Entretanto, um príncipe real, Tadiyathevar, no princípio inimigo do missionário, mas que caiu gravemente enfermo e no limite de recursos humanos, manda-o chamar para que o cure. O padre envia primeiro um catequista para se certificar da sinceridade do pedido e propor-lhe antes o Baptismo. Apesar dos perigos de uma nova perseguição da parte do rei, aceita finalmente reunir-se com o príncipe. Este, polígamo, com cinco esposas, não pode receber o Baptismo antes de estar conforme a lei cristã do matrimónio. Mas, se despedir as esposas não legítimas corre o risco de indispor o próprio rei, que verá aí uma perturbação da ordem social estabelecida no seu reino. O príncipe vacila, mas permite que o missionário organize no seu própio palácio uma magnífica cerimónia no decurso da qual confere o Baptismo a duzentos catecúmenos e distribui a Comunhão a centenas de súbditos do príncipe já baptizados. Maravilhado, o príncipe deixa-se finalmente convencer, despede todas as suas esposas, mas não sem antes providenciar das suas necessidades, excepto à mais antiga que considera como esposa legítima, e recebe o Baptismo, bem como ela, a 6 de Janeiro de 1693. Mas uma das esposas repudiadas, sobrinha do rei perseguidor, apressa-se a apresentar-se diante do tio e expõe-lhe as suas queixas ; furioso, este considera esse despedimento como uma ofensa pessoal.

A firmeza do padre João de Brito sobre a santidade do matrimónio foi várias vezes comparada com a de São João Baptista, que pagou com a vida a adesão à lei de Deus e, concretamente, à proibição absoluta de qualquer união adúltera.

Na encíclica Redemptoris missio, São João Paulo II recorda que o respeito pelos ensinamentos do Evangelho conduz o homem à verdadeira liberdade e ao verdadeiro amor a que aspira : « A Igreja oferece aos homens o Evangelho, documento profético que dá resposta às exigências e aspirações do coração humano e que é sempre “Boa-Nova”. A Igreja não pode deixar de proclamar que Jesus veio revelar o rosto de Deus e alcançar, mediante a cruz e a ressurreição, a salvação para todos os homens. À pergunta:  Para quê a missão ?, respondemos graças à fé e à experiência da Igreja , que a verdadeira libertação está na abertura ao amor de Deus. Nele, só n’Ele, somos libertados de todas as formas de alienação e desvario, da escravidão ao poder do pecado e da morte. Cristo é verdadeiramente a nossa paz (Ef.2, 14), e o amor de Cristo nos absorve completamente (2 Co5, 14), dando sentido e alegria à nossa vida. A missão é um problema de fé; é o índice exacto da nossa fé em Cristo e no seu amor por nós. Hoje, a tentação consiste em reduzir o cristianismo a uma sabedoria meramente humana, uma espécie de ciência para bem viver. Num mundo fortemente secularizado, tem-se dado uma secularização progressiva da salvação, devido à qual se luta certamente em favor do homem, mas de um homem mutilado, reduzido apenas à dimensão horizontal. Em contrapartida, sabemos que Jesus veio trazer a salvação integral, que abarca o homem inteiro e todos os homens, abrindo-lhes os admiráveis horizontes da filiação divina » (7 de Dezembro de 1990, núm. 11).

O dia da felicidade

Consciente do perigo que corre, o padre João de Brito diz adeus aos cristãos e convida-os a esconderem-se : « O que Deus exige de mim, não o pede a vós » —afirma. A 8 de Janeiro foi preso : ao aproximarem-se os soldados, apresenta-se diante deles para permitir que os cristãos que o rodeiam fujam; um brâmane convertido ao cristianismo e dois catequistas são presos com ele. Golpeiam-no e obrigam-no a invocar a Shiva, mas ele invoca a Jesus. Uma noite, um catequista, de estatura imponente, que não tinha sido detido, apresenta-se junto dele para o liberar. O padre recusa : « Deixemos a Providência actuar ! ». No dia seguinte, deslocam-no numa viagem de três ou quatro dias até Ramnad, onde encontra seis cristãos. O padre pode conservar o breviário, do que extrai todos os dias, para os seus campanheiros, o relato da vida de um mártir. Escreve também aos amigos franceses de Pondichéry e aos seus superiores jesuítas para lhes pedir que não intercedam em seu favor, sabendo até que ponto o seu testemunho até ao sangue será precioso para os neófitos sumbetidos à perseguição. É condenado à morte secretamente a 28 de Janeiro, mas as autoridades anunciam que será exilado, por temor a uma revolta popular, já que os cristãos são muito numerosos naquele lugar. Dois dias mais tarde, foi transferido para Oriyur, com alguns cristãos fiéis. Ali, escreve as suas últimas cartas. O príncipe governador do lugar está enfermo e pede ao seu prisioneiro que o cure, em troca de lhe salvar a vida. O missionário fala-lhe de outra cura, a cura moral e espiritual, mas o príncipe recusa compreendê-lo e ordena a sua execução. O padre escreve então ao seu amigo, o padre João da Costa, uma última carta cheia de fé, de humildade e de esperança : « Conduziu-me a Oriyur para ser decapitado ; sofri muito durante o trajecto, mas pude finalmente chegar. Apresentado perante o tribunal, padeci um longo interrogatório sobre a fé, que confessei. Dali, conduziram-me de novo à prisão, donde agora espero o dia da felicidade. Mas, para o conseguir, necessito das vossas orações. A alegria do Senhor abunda no meu coração e dá-me forças. Estou rodeado de guardas, e não vos posso dizer muito mais. Adeus, querido padre. Queira comunicar esta carta a todos os nossos padres. Vosso servidor e amigo em Jesus Cristo, João de Brito ».

O novo apóstolo das Índias foi decapitado a 4 de Fevereiro de 1693, quarta-feira de cinzas. O soldado que o executou, e a quem o padre abraçou antes, converter-se-á e receberá o Baptismo com uma multidão de pessoas desse país. Beatificado a 21 de Agosto de 1853 pelo beato Pio IX, João de Brito foi canonizado por Pio XII a 22 de Junho de 1947, fixando-se a sua memória litúrgica a 4 de Fevereiro. Oriyur converteu-se num lugar de peregrinação muito frequentado pelos cristãos do Sul da Índia.

A modo de eco sobre a vida de São João de Brito, o Papa Francisco recorda-nos ainda hoje que « quanto mais Jesus toma o centro da nossa vida, tanto mais nos faz sair de nós mesmos, nos descentra e nos torna próximos dos outros. Esse dinamismo do amor é como o movimento do coração… concentra-se para se encontrar com o Senhor e imediatamente se abre, saindo de si por amor, para dar testemunho, falar e anunciar Jesus. Este dá-nos o mesmo exemplo : retirava-se para rezar ao Pai e ia imediatamente ao encontro dos que têm fome e sede de Deus, para os sarar e salvar » (mensagem de 5 de Julho de 2017 aos participantes no primeiro Simpósio Internacional de Catequética, em Buenos Aires, 11-14 de Julho de 2017). Peçamos ao Espírito Santo que faça de nós verdadeiros testemunhos de Jesus Cristo.

Dom Antoine Marie osb