Carta

Blason   Abadia de São José de ​​Clairval

F-21150 Flavigny-sur-Ozerain

France


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8 Setembro 2018
festa da Natividade de Nossa Senhora


Caro amigo da Abadia de São José

Binta é uma adolescente africana muçulmana que vive na Guiné. Um dia do ano 1994, ingere soda cáustica. É transportada para Barcelona, onde se salva graças a uma intervenção cirúrgica e, posteriormente, é alojada numa residência das «Irmãs Azuis». Mas os médicos descobrem em seguida uma enorme úlcera, uma peritonite e uma hemorragia estomacal. Apesar de uma nova e longa operação, o diagnóstico é taxativo: «Não se pode fazer mais nada» – afirma uma enfermeira. Inclusive prepara-se a certidão de óbito. As Irmãs Azuis iniciam uma novena à sua fundadora, Emília de Villeneuve, e colocam na mão da jovem o retrato de Emília, além de uma das suas relíquias. De repente, Binta abre os olhos e, sem explicação médica, restabelece-se rapidamente. Após vinte e três dias em estado de inconsciência, levanta-se sozinha e regressa à residência das Irmãs, completamente curada. Este milagre permitiu a beatificação de Emília de Villeneuve, que teve lugar em 5 de Julho de 2009, em Castres (Tarn, França).

Emília de Villeneuve nasceu em 9 de Março de 1811 em Toulouse, numa das famílias nobres mais antigas do Languedoc. Antes dela haviam nascido duas irmãs: Leôncia e Octávia. No Verão, a família desloca-se para o castelo de Hauterive, perto de Castres. Em 1815, após o nascimento de um menino, Ludovico, a família instala-se em Hauterive. A senhora de Villeneuve encarrega-se da instrução e educação dos filhos, apesar de uma saúde precocemente consumida por causa de sofrimentos provocados pela Revolução. O marido ocupa-se da gestão das terras, que percorre com assiduidade, dirigindo labores e colheitas. No castelo, a disciplina é estrita: sem aquecimento nos quartos; silêncio à mesa; no salão, as crianças são relegadas para o fundo da divisão, é-lhes proibido fazer ruído. Em contrapartida, no parque podem expandir-se livremente. A autoridade materna é, ao mesmo tempo, firme e flexível; depois de ter ensinado os princípios cristãos de uma recta conduta, apoia-se muito na confiança.

A diferença de idades entre Emília e as irmãs provoca algum distanciamento entre elas, deixando-a num certo isolamento; durante os anos de infância manifesta uma insensibilidade desconcertante: «Um coração que parecia nada sentir, uma mente fria, desprovida inclusive da amabilidade dos pequenos raciocínios tão graciosos da infância» – disse dela Coralie, uma das suas amigas. A isto há que acrescentar um traço de carácter invulgar nessa idade: um amor apaixonado pela exactidão, pelas coisas realizadas na hora indicada. A mãe encarregou-a de ensinar os rudimentos da instrução ao seu irmão mais novo, e Emília sabe, fazer-se obedecer, sem brusquidão, por este irmão rebelde. Ela mesma manifesta um crescente interesse pelo estudo.

Sensível mas reservada

Em 1825, a senhora de Villeneuve falece após uma dolorosa agonia. Acostumada a não exteriorizar os sentimentos apesar de bem reais – ela mesma confessa que se sente inclinada «para a sensibilidade e para a ternura» –, Emília parece insensível. Mas essa atitude é a exteriorização de um drama íntimo: a ternura que a mãe dedicava sobretudo às duas irmãs mais velhas, fez-lhe muita falta e daí resultou que a jovem se fechasse em si mesma. Pela sua primeira comunhão, em Janeiro de 1826, além do seu fervor, não deixou transparecer qualquer outro sentimento. Pouco depois, o senhor de Villeneuve é nomeado alcaide de Castres, confiando os filhos à sua própria mãe, que vive em Toulouse. A mãe, uma senhora cega e de idade avançada, dá-lhes quase total liberdade. A sala da residência é um lugar de reunião para toda a cidade, e Leôncia e Octávia estão encantadas: apaixonam-se e a vida é-lhes agradável. Quanto a Emília, apesar da sua magnífica cabeleira loira, não consegue provocar qualquer encanto: «A sua grande estatura e delgadeza tornam-na pouco graciosa – afirma Corália…A vista excessivamente curta conferia-lhe um aspecto desajeitado, inclusive por vezes pouco polido, e provocava um piscar de olhos que conferia algo estranho à sua fisionomia».

Octávia falece em 1828, com a idade de vinte anos. Toda a família ficou num pranto, excepto Emília, a quem os familiares consideram dura de coração. Todavia, esse acontecimento provocou nela um efeito surpreendente: «Emília deu início a uma nova existência – escreve Coralie… Uma caridade indescritível, um amor terno e intenso animarão, daí em diante, todos os seus actos. Deleitava-se rezando e frequentando os sacramentos e, quando algumas amáveis e piedosas pessoas visitavam a sua avó, Emília aproximava-se e escutava-as com entusiasmo, sobretudo quando falavam de Deus e das coisas do Céu». O seu coração, encerrado em si mesmo durante muito tempo, entrega-se agora, inteiramente, a Deus e, por Ele, às almas.

Em finais de Novembro de 1829, Leôncia contrai matrimónio. Emília assume então o papel de governanta no castelo de Hauterive, meio abandonado desde há alguns anos. O pai demite-se, em 1830, do cargo de alcaide de Castres, mas multiplica as suas actividades agrícolas. Emília consegue pôr tudo em ordem em pouco tempo, graças à grande aptidão para governar, o que muito agrada ao pai. A Ludovico, por sua parte, irrita-o a seriedade da irmã: «Com a tua idade e na tua posição – diz-lhe -, adoptar uma vida tão isolada é absurdo. E as tuas amigas são tão ridículas como tu, não tendes senso comum. Para além dos sermões ou das solenidades da Igreja não tendes nenhuma diversão». Emília assiste à missa todas as manhãs. Divide com os pobres toda a pensão que o pai lhe dá, visita as jovens, dá-lhes aulas e socorre-as na doença. O padre Leblanc, jesuíta residente em Toulouse, é o seu guia espiritual.

Uma atracção irresistível

Ao cumprir vinte e três anos, Emília confessa a Coralie: «Não me vou casar… mas o que me atormenta é uma vocação pela qual sinto uma atracção irresistível; entretanto o padre Leblanc não se quer pronunciar… Sinto desejos de me consagrar aos pobres na admirável sociedade das Filhas de São Vicente de Paula». Quando, por fim, o padre Leblanc aprova o seu projecto, a sua satisfação é enorme. Todavia, o pai, juntamente com a restante família, pede-lhe um período de reflexão de quatro anos. O padre Leblanc aconselha a sua pupila que aceite essa espera; assim, prossegue as actividades, ajudando o pároco, o que leva as amigas a lhe chamarem «o senhor vigário». Um dia chega uma carta do senhor de Barre, fervoroso cristão que reza muito nas igrejas e ocupa o tempo aliviando a miséria dos pobres. Durante a missa teve uma inspiração: Emília deveria fundar em Castres uma casa dirigida por religiosas para se encarregar da educação das crianças cujos pais não podem, por si mesmos, dar-lhes educação. Depois de alguns meses de discernimento e de orações, o padre Leblanc conclui que Deus quer essa obra. O senhor de Villeneuve, tranquilizado pela ideia de que a filha não se afastará demasiado dele, dá o seu consentimento, aprovação que também virá do arcebispo de Albi.

A ajuda económica paterna permite que Emília possa comprar uma casa em Castres. Baptiza a sociedade que funda com o nome de «Congregação da Imaculada Conceição», e o hábito das Irmãs será azul. Com duas companheiras, dirige-se à Visitação de Toulouse para seguir um mês de noviciado. Em 8 de Dezembro de 1836 teve lugar em Castres a entrega do hábito, a profissão religiosa temporária e a instalação das três irmãs em sua casa, na presença do arcebispo. Emília toma o nome de irmã Maria. As primeiras Regras definem o objectivo da nova congregação: a educação das crianças abandonadas, o serviço aos pobres e aos prisioneiros e a instrução e formação profissional das jovens. Em 19 de Março de 1837 inaugura-se uma oficina com capacidade para trinta alunas, mas em pouco tempo a instituição é acusada de concorrência desleal por parte das modistas da cidade. A população que se tinha mostrado muito favorável às Irmãs, quando se instalaram, volta-se com aspereza contra a Irmã Maria mediante conversas mal-intencionadas e inclusive calúnias. Também o clero se deixa influenciar, mas o padre Leblanc anima as Irmãs a seguir em frente.

«Sou tão débil»

Em finais de 1837, a onda de críticas já tinha passado e são admitidas quatro postulantes. Nos princípios do ano seguinte, o município de Castres confia às Irmãs o cuidado das prisões. Em 1 de Maio de 1838, a comunidade instala-se no antigo seminário menor. A irmã Maria ocupa-se de cada uma das alunas com afectuosa solicitude e estas sentem-se atraídas pela paz que dimana da sua pessoa. Ela mesma, nuns escritos íntimos, desvenda alguns aspectos da sua vida espiritual: «Oh, Deus meu Criador e meu Salvador, faço-vos a oferta de mim mesma, a mais completa e perfeita que possa fazer... Não peço que me mandeis cruzes ou grandes provas, porque sou muito débil e não sei se pedindo-as, as poderia suportar como é devido… Abandono, confiança, isso é tudo para mim». A sua divisa é: «Somente Deus».

No decurso do ano 1840, aparecem grandes dificuldades na comunidade: alguns maus exemplos conduzem a alguma relaxação. A madre Maria de Villeneuve não força nada; somente reza. Uma organização todavia imperfeita não permite que a formação religiosa que aí é dada produza todos os frutos. Decide separar as noviças das religiosas professas, e de seguida empreende a redacção de umas Constituições que serão aprovadas pelo arcebispo de Albi em finais de 1841. A superiora geral deveria ser eleita por três anos, mas as Irmãs conseguem do arcebispado que a sua fundadora seja superiora para a vida. Ela exerce sobre as suas filhas um trabalho cheio de delicadeza e de discreta vigilância, captando de seguida as suas incertezas, tribulações e penas, e consegue encontrar imediatamente a frase que convém para as conduzir à serenidade. Põe o maior empenho em não se desviar em nada da regra comum e deseja, de vez em quando, poder varrer a cela ou lavar os pratos.

A partir de Abril de 1841, a madre adquire um terreno para construir a casa mãe da Congregação. Mas a chama do amor divino que inflama o seu coração impele-a para as missões longínquas: «O desejo de promover o amor a Jesus Cristo e de O servir nos seus membros não se cingirá somente aos limites de França. A Congregação tem, além disso, como objetivo consagrar-se à formosa obra das missões estrangeiras, sobretudo às missões dos negros, e geralmente dos povos mais depreciados e mais abandonados. Em qualquer lugar onde a voz do pobre ou do órfão as chame, aí acudirão sem questionar».

Sem Deus não há esperança.

Em 11 de Maio de 2008, o Papa Bento XVI recordava a necessidade fundamental que temos de Cristo: «Cristo é o nosso futuro. Sem Cristo, a humanidade encontra-se sem esperança e sem Deus no mundo (Ef 2, 12), sem esperança por estar sem Deus» (Encíclica Spe salvi, 3). Com efeito, «quem não conhece a Deus, embora tenha múltiplas esperanças, no fundo está sem esperança, sem a grande esperança que sustém tudo o que é vida» (Ibid., 27). Assim pois, é um dever imperioso de todos anunciar Cristo e a sua mensagem salvífica. E São Paulo afirmava: Ai de mim se não pregar o Evangelho! (1 Co 9, 16)». (Mensagem para a Jornada Mundial das Missões). Um ano mais tarde, o Papa acrescentaria: «O objectivo da missão da Igreja é, com efeito, iluminar com a luz do Evangelho todos os povos no seu caminho histórico para Deus, para que n’Ele tenham a sua realização plena e o seu cumprimento. Devemos sentir a ânsia e a paixão por iluminar todos os povos, com a luz de Cristo, que brilha no rosto da Igreja... A Igreja não actua para estender o seu poder ou afirmar o seu domínio, mas para levar a todos Cristo, salvação do mundo. Está em questão a salvação eterna das pessoas, o fim e a realização mesma da história humana e do universo» (29 de Junho de 2009).

Em 1842, a madre Maria de Villeneuve entra em contacto com o padre Libermann, fundador dos Missionários do Sagrado Coração de Maria. Estabelece-se um projecto de colaboração entre as Irmãs de Castres e os Padres Missionários. Em princípios de Junho de 1843, a madre dirige-se a Paris para tentar conseguir do governo a aprovação civil para abrir escolas municipais, embora resulte em vão. Ali se encontra com o padre Libermann. «Prefiro – escreverá – as suas conversações às suas cartas… As nossas opiniões continuam concordando de uma maneira extraordinária. É um homem cheio do verdadeiro espírito de Deus, de uma prudência consumada, e ainda não encontrei ninguém que me tenha inspirado tanta confiança». De regresso a Castres, a fundadora constata que os gastos que são necessários para construir o convento ultrapassam os recursos. Para obter os fundos necessários, as Irmãs propõem-se fazer penitência durante quarenta dias. A madre aceita, mas orientando primeiro as suas filhas para a conversão interior. Em 30 de Abril de 1844, a comunidade instala-se no convento já finalmente terminado.

Em Julho de 1846, a madre Maria funda um refúgio para acolher as mulheres cuja extrema miséria conduziu à prostituição. «As Irmãs, que a obediência consagre a esta importante obra, deverão estar imbuídas de um sagrado zelo e de um verdadeiro espírito de fé – escreve nas Constituições –; nessas pobres almas, as Irmãs considerarão menos o vergonhoso estado em que o pecado as reduziu que o Sangue divino que é o seu resgate e Nosso Senhor, do qual são os membros e a quem são chamadas a amar e glorificar, quiçá com maior perfeição que elas mesmas, durante toda a eternidade… É muto importante que as Irmãs não demonstrem, para com as penitentes, qualquer que sejam os erros que devam reprovar-lhes, nem impaciência, nem desprezo para com as suas pessoas. Antes pelo contrário, tratá-las-ão sempre com uma doçura e afecto cheios de santidade».

Mas a madre segue pensando nas missões longínquas. Uma primeira partida de quatro religiosas para África foi fixada para 22 de Novembro de 1847; outras terão lugar em 1849 e 1850. O padre Libermann dirige às Irmãs sábios conselhos: «Sem pensar, procuramos que os povos da região assumam condutas e maneiras próprias da Europa... Mas há que fazer o contrário: deixar que os indígenas actuem segundo os costumes e hábitos que lhes são naturais, e aperfeiçoá-los animando-os mediante os princípios da fé e as virtudes cristãs, e corrigindo o que possam ter de defeituoso». Acima de tudo, o padre exorta as Irmãs a cultivar uma paciência a toda a prova.

A fonte

O Coração de Jesus, no qual a madre Maria põe toda a confiança, é a fonte de onde «se podem colher a atenção, a ternura, a compaixão, o acolhimento, a disponibilidade, o interesse pelos problemas das pessoas e as demais virtudes que necessitam os mensageiros do Evangelho para deixar tudo e dedicar-se completa e incondicionalmente a difundir pelo mundo o perfume da caridade de Cristo» (Bento XVI, 11 de Maio de 2008).

Em Novembro de 1847, a madre de Villeneuve dirige-se a Amiens para retomar um antigo projecto muito querido do padre Libermann: instalar um noviciado para as missões na aldeia de Saint-Pierre, perto da cidade. Existe aí uma jovem senhora e uma antiga religiosa que desejam una ordem terceira. Considera-se a possibilidade de unir o noviciado da Imaculada Conceição com a futura ordem terceira. Na prática, as dificuldades que se apresentam são tais que a madre se vê obrigada a abandonar esta implantação em Maio de 1851. O padre Libermann falece em 2 de Fevereiro de 1852, e o seu sucessor deseja que a madre retome esse projecto de fundação. Por causa de todo esse tempo de indecisão, e dolorosamente afectada pelas dificuldades que surgem por todos os lados, tanto nas missões como em Castres, a fundadora atravessa uma época especialmente turbulenta ao ponto de perder o sono e o apetite. Quando se encontra sozinha, ou pensa que está, deixa-se levar pelas lágrimas que atraiçoam a sua profunda sensibilidade, mas também o seu cansaço. Felizmente, esse estado não dura muito tempo e, de seguida, a madre recupera a serenidade, a calma e a valentia habituais. Decide então dedicar-se a fundar um internato em Paris sem recuperar o projecto de Saint-Pierre, e regressa a Castres em finais de Junho de 1853.

Na sua delicada vida espiritual, a madre de Villeneuve intenta sobretudo cumprir a vontade de Deus. «Quando falamos, actuamos ou escrevemos pelo bem de uma alma, por causa de um assunto importante – dizia às suas filhas –, não devemos propor quer o bem dessa alma quer o êxito desse assunto, mas unicamente a vontade de Deus, não querendo naquilo que nos propusemos mais que as Suas intenções, com frequência distintas das nossas». Além disso, concede grande importância à oração: é necessário que nos acostumemos «a conversar com Jesus no meio das ocupações, ao circular pela casa e rezar com o coração». Ela mesma aprecia os momentos em que se encontra sozinha com Deus. Todavia, a sua vida espiritual transcorre amiúde no meio da aridez da fé pura, e fala com experiência quando escreve a uma das suas filhas: «Não se inquiete com o seu estado interior, que, segundo me diz, é algo tenebroso. Deus está em todo o lado, inclusive ainda mais nas trevas». E a outra aconselha-a: «Deve temer sempre um pouco a ilusão e preferir ser conduzida pela fé nua e insípida… Desconfie desses desejos tão elevados de perfeição; contente-se em desejar que se cumpra a vontade de Deus… Receio para si e para as demais a via do facilitismo; em contrapartida prefiro a fé, as trevas e ao fim-e-ao-cabo as cruzes».

Uma singular humildade

Dois meses depois do seu regresso a Castres, a madre de Villeneuve assusta as suas filhas apresentando a demissão do cargo de superiora geral. As razões que invoca resumem-se deste modo: a sede ardente que experimenta de praticar a obediência até nas coisas mais pequenas; a vantagem que supõe para a Congregação, que um dia ou outro se verá privada da sua conduta; o temor de que as suas filhas lhe obedeçam mais por causa da confiança e do terno afecto que pela fé e puro amor de Deus. Acima de tudo, a madre não se considera em absoluto necessária, nem sequer desejável, para o posto de superiora. Não sem sofrimentos, o capítulo geral de Setembro de 1853 ratifica a sua decisão. Todavia, disposta como está a dar a sua ajuda à nova superiora, a fundadora assume os cargos de assistente geral e mestra de noviças, que executará discreta e eficazmente. Este exemplo de humildade e de desprendimento é certamente para a sua Congregação uma fonte sem igual de fecundidade.

Até finais de 1854, a cólera expande-se pelo Sul de França e atinge a cidade de Castres. Uma epidemia de sudor anglicus (enfermidade febril contagiosa) desencadeia-se nesse período. A madre de Villeneuve empreende uma verdadeira cruzada de orações e suscita uma atmosfera de confiança. A cólera não entra no convento das Irmãs, mas a fundadora é vítima do sudor anglicus e, a partir de 7 de Setembro tem de permanecer na cama. No princípio de Outubro, o seu estado agrava-se e o capelão administra-lhe a unção dos enfermos. Pouco depois entrega a alma a Deus, enquanto as Irmãs recitam as orações para os moribundos.

A Congregação das Irmãs Azuis de Castres conta na actualidade com mais de seiscentos membros repartidos em 123 comunidades, e está presente na Europa, África, América do Sul e Ásia.

Numa homilia para novos bispos, em 21 de Setembro de 2009, o cardeal Hummes, prefeito da Congregação para o Clero, dizia: «A Igreja sabe que existe uma urgência missionária em todo o mundo, mas não só «ad gentes» (a favor dos pagãos)… mas também nos países do mundo cristão… Todos os nossos países são agora terra de missão no sentido estrito da palavra… É necessário levantar-se e ir, primeiro, ao encontro de todos os baptizados que se afastaram da participação na vida das nossas comunidades e, depois, para todos aqueles que pouco ou nada conhecem Jesus Cristo». Em 6 de Janeiro de 2008, o Papa Bento XVI recordava no mesmo sentido que «todo o cristão é chamado a iluminar, com a palavra e o testemunho da sua vida, os passos dos irmãos… Com a luz que leva dentro de si, pode e deve ajudar a quem se encontra ao seu lado e que, talvez, não consegue encontrar o caminho que conduz a Cristo».

Que a santa Emília de Villeneuve nos consiga a graça de sermos verdadeiros evangelizadores, apaixonadamente comprometidos em propagar, por toda a parte, o Reino de Deus.


Dom Antoine Marie osb