Carta

Blason   Abadia de São José de ​​Clairval

F-21150 Flavigny-sur-Ozerain

France


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13 Junho 2019
festa de santo António de Lisboa


Caro amigo da Abadia de São José

«Xavier, de que servirá ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a alma ? » (Mt 16, 26). Esta advertência de Nosso Senhor é dirigida por Inácio de Loyola a Francisco Xavier, que a comenta deste modo : « Pensa bem, pois o mundo é um mestre que promete, mas que não cumpre a palavra. E mesmo que cumpra para contigo as suas promessas, nunca poderá preencher o teu coração. Mas suponhamos que o preenche, por quanto tempo durará a tua felicidade ? Em qualquer caso, poderá durar mais que a tua vida ? E na morte, que levarás para a eternidade ? De que servirá ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a alma ? ». Pouco a pouco, esta máxima penetra no coração de Francisco Xavier, e aí fica profundamente gravada. Deste modo inicia-se um caminho que fará dele um dos santos mais insignes da história da Igreja.

Mais do que uma paixão

Francisco nasce a 7 de Abril de 1506, no castelo de Xavier, em Navarra, no nordeste de Espanha. Em 1512, o pai é condenado à perda de todos os seus bens por ter combatido com o rei de Navarra numa guerra contra a coroa de Castela ; morrerá de desgosto em 1515. No ano seguinte, a fortaleza de Xavier é desmantelada, e as terras familiares confiscadas. Quando Francisco alcança a maioridade, a família encontra-se na ruína. Nesta conjuntura, a carreira das armas não o atrai. Em Setembro de 1525, despede-se da mãe e dos irmãos – despedida definitiva pois nunca mais os voltou a ver –, e vai para Paris para aí estudar na Universidade ; aloja-se no colégio de Santa Bárbara, na companhia de alguns condiscípulos entregues, na sua maioria, a uma vida pouco edificante. Apesar de tudo, entre eles encontram-se dois homens excepcionalmente piedosos : Pedro Le Fèvre e Inácio de Loyola. Este último, originário do País Basco, vizinho de Navarra, considera, desde algum tempo, a possibilidade de fundar uma obra santa para o bem da Igreja ; após constatar as qualidades espirituais de Pedro e de Francisco, intenta partilhar com eles a sua ambição espiritual. Inácio leva consigo Pedro Le Fèvre a fazer os Exercícios Espirituais durante trinta dias ; no fim desse retiro, Pedro entrega-se por completo a essa boa causa. Quanto a Francisco, isto torna-se mais difícil. É certo que, graças aos conselhos de Inácio e de Pedro, se havia afastado de algumas relações perigosas e repeliu as doutrinas nocivas que os partidários de Calvino puseram a circular por Paris. Mas o coração de F. Xavier, orgulhoso e receptivo ao sopro da ambição humana, apenas sente desdém pela vida obscura de renúncia enaltecida por Inácio. Este, grande conhecedor das almas, penetra primeiro nos sentimentos de F. Xavier, o qual, como professor de filosofia, tem pretensões de fazer uma brilhante carreira perante um vasto auditório. Inácio arranja-lhe tantos discípulos que Francisco reconhece nele um verdadeiro amigo em quem se pode confiar. Inácio aproveita essa amizade para recordar-lhe a vaidade das grandezas e das vantagens deste mundo, assim como a sua inutilidade para a vida eterna. De que serve ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a alma ? F. Xavier, tocado pela graça de Deus, faz os Exercícios Espirituais, durante os quais pede « o conhecimento íntimo do Senhor, que por mim se fez homem, para que O ame com ardor e O siga com mais fidelidade » (Ex. Espir. 104). Daí em diante, só sentirá uma paixão : amar e fazer que Jesus Cristo seja amado.

A esse pequeno grupo se unem, de seguida, outros quatro estudantes. Inácio propõe então aos seus seis companheiros que se entreguem mais plenamente a Deus e se unam entre si pelo vínculo dos votos religiosos. A 15 de Agosto de 1534, na capela de Nossa Senhora de Montmartre, Pedro Le Fèvre, então o único sacerdote do grupo, celebra a Santa Missa, no decurso da qual todos fazem votos perpétuos de pobreza e castidade, com a promessa de se dirigirem à Terra Santa ou de se porem ao serviço do Sumo Pontífice. Enquanto esperam conhecer a santa vontade de Deus, reúnem-se a miúdo para rezarem e se encorajarem mutuamente na prática das virtudes.

A 25 de Janeiro de 1537, os primeiros membros da Companhia de Jesus encontram-se em Veneza ; mas, ao ser impossível a peregrinação à Terra Santa por causa da situação política, decidem dirigir-se a Roma para pedir a bênção do Papa Paulo III, que os acolhe com benevolência e lhes concede autorização para serem ordenados sacerdotes ; esta cerimónia teve lugar a 24 de Junho de 1537. Depois, o pequeno grupo dispersa-se por diversas cidades de Itália. O padre Xavier é destinado a Bolonha, onde se dedica à instrução da gente do povo, dos enfermos e prisioneiros. Como não domina bem a língua italiana, fala pouco, mas com uma convicção tal que as suas palavras vão direitas ao coração dos ouvintes. Em finais de 1538, o rei de Portugal, Dom João III, pede a Inácio que lhe conceda missionários para a evangelização da Índia. Este, de acordo com o Papa, põe à sua disposição dois religiosos, um dos quais é Francisco Xavier. Como só foi posto ao corrente da situação na véspera da partida, a 15 de Março de 1540, Xavier só levou consigo o hábito que tinha vestido, o crucifixo, um breviário e outro livro.

Ministerio das almas

Após uma viagem de três meses, o padre Xavier chega a Lisboa em companhia de Simão Rodriguez ; ambos são recebidos por Dom João III, homem verdadeiramente piedoso e preocupado com a salvação das almas. Enquanto esperam o dia da partida para a Índia, entregam-se ao ministério do cuidado das almas na capital de Portugal. A sua dedicação apostólica suscita tanta admiração em Lisboa que o rei recebe petições para que permaneçam no país. Inácio decide que Rodríguez permaneça em Lisboa ; por sua vez o destino do padre Xavier será a Índia. A sua partida, em companhia de três jovens confrades, teve lugar a 7 de Abril de 1541.

Naquela época, a viagem de Portugal à India, pelo cabo da Boa Esperança, era uma aventura arriscada, de que ninguém pudesse presumir previamente sair vivo. Quando o barco não naufraga, as epidemias, o frio, a fome e a sede encarregam-se com frequência de dizimar os passageiros. No dia um de Janeiro de 1542, o padre Xavier escreve aos seus irmãos de Roma : « Padeci de enjoos durante dois meses ; todos sofreram muito durante quarenta dias ao largo da Guiné… É tal a natureza dos sofrimentos e das fadigas que, por nada do mundo, as teria enfrentado nem um só dia. Encontrámos, não obstante, consolação e esperança cada vez maior na misericórdia de Deus, com a convicção de que nos falta talento necessário para pregar a fé de Jesus Cristo em terra pagã ». A 6 de Maio de 1542, chegam a Goa, na costa ocidental da Índia.

Após receber do Papa os plenos poderes espirituais sobre os súbditos do império colonial de Portugal, Francisco Xavier chega à Índia com o título de « Núncio Apostólico ». Em Goa encontra uma cristandade confrontada com exemplos pouco edificantes de alguns europeus. Graças à sua entrega, mesmo antes de o ano terminar, Goa aparece muito modificada ; um significativo número de almas caminha já pela via da perfeição, e o padre Xavier encoraja-as exercitando-as a meditar, seguindo o método que Santo Inácio chama o « primeiro modo de orar » (Ex. Espir. 238-248). Esta maneira de meditar consiste em fazer o exame de consciência em relação aos dez mandamentos de Deus, os sete pecados capitais, as três faculdades da alma (memória, inteligência e vontade) e os cinco sentidos corporais. Pede-se a Deus a graça de saber se e de que modo foram observados ou transgredidos os mandamentos, e o necessário auxílio para correcção no futuro. O bispo de Goa deseja que o padre Xavier continue com o grande bem que fez na cidade, mas este, movido pelo Espírito de Deus, aspira a conquistas mais amplas. Como os apóstolos, arde em desejos de enfrentar os perigos, os sofrimentos e as perseguições a fim de ganhar o maior número possível de almas para Jesus Cristo. O governador de Goa, que conhece a sua entrega, capta as suas intenções e refere-lhe o caso dos vinte mil homens da tribo dos Paravers, precipitadamente baptizados, oito anos antes, na costa da Pescaria, e que, desde então, voltaram à ignorância e às superstições.

Maior felicidade

O padre Xavier escreve numa carta a Santo Inácio : « Parto contente, pois tudo faço por amor a Deus : suportar as fadigas de uma longa travessia, carregar com os pecados dos outros quando a cada um basta os próprios, permanecer junto aos pagãos e sofrer os ardores de um sol abrasador ; trata-se seguramente de grandes consolações e motivo de gozos celestiais. Porque, finalmente, para os amigos da cruz de Jesus Cristo, a vida bem-aventurada é, segundo parece, uma vida repleta de cruzes semelhantes… Existe maior felicidade do que viver morrendo cada dia, renunciando às nossas conveniências para procurar e encontrar não o que é proveitoso para nós mas sim para Jesus Cristo ? ». Os cristãos que encontra na costa da Pescaria ignoram tudo sobre questões da religião Deste modo, o padre Xavier começa pelos rudimentos da fé : o sinal da cruz acompanhada da invocação das três Pessoas em Deus, o Credo, os Dez Mandamentos, o Pai Nosso, o Ave Maria, a Salve Rainha e o Acto de Confissão.

Essa preocupação em transmitir os rudimentos da fé é também a da Igreja. Na verdade, numa época como a nossa, marcada por um excesso de informação e pela especialização dos estudos superiores, constata-se que as verdades mais simples, as que conduzem à salvação eterna, não se transmitem. Foi por isso que o Santo Padre Bento XVI promulgou o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, que, « por sua brevidade, clareza e integridade, se dirige a todas as pessoas, que, vivendo num mundo disperso e cheio das mais variadas mensagens, queiram conhecer o Caminho da Vida, a Verdade entregue por Deus à Igreja de seu Filho » (Motu proprio para a aprovação do Compêndio, 28 de Junho de 2005).

Face a essa enorme colheita de almas, e diante do pensamento do imenso bem que se poderia fazer com o concurso de numerosos operários, Francisco Xavier volta o seu olhar para a Europa, onde tantos homens inteligentes consomem as forças em ocupações de pouca utilidade. « Muitas vezes – escreve – ocorre-me a ideia de ir às universidades da Europa e, uma vez aí, a plenos pulmões, como faria alguém que perdeu o juízo, dizer a homens mais ricos de ciência que de vontade de tirar partido disso, quantas almas, por sua negligência, se vêem privadas da glória celestial e vão para o inferno ! Se, ao estudarem as letras, se dispusessem também a considerar as contas que Deus lhes pedirá, muitos deles, tocados por esses pensamentos, recorreriam a certos métodos, a exercícios espirituais concebidos para dar-lhes o conhecimento verdadeiro e o íntimo sentimento da vontade divina, se conformariam mais com ela do que com as próprias inclinações, e diriam : « Eis-me aqui, Senhor, que quereis que eu faça ? Enviai-me onde quiserdes e, se for necessário, inclusive às Índias… Estive prestes a escrever à Universidade de Paris que milhões de pagãos se fariam cristãos se não faltassem operários … ».

Preocupar-se com a alma

A 7 de Abril de 2006, o cardeal António Maria Rouco Varela, arcebispo de Madrid, durante uma missa em comemoração do quinto centenário do nascimento de São Francisco Xavier, explicou da seguinte maneira essa paixão do Santo : « Xavier preocupava-se com a alma, a sua e a de todas as pessoas, a alma de cada ser humano. Preocupava-se com a « alma », pois preocupava-se com a vida : a vida em plenitude, a vida na felicidade, a vida eterna … Preocupava-se com a salvação do homem e, por isso, a sua vida consistiu em consumir-se para que cada criatura que encontrava pudesse conhecer e fazer sua a verdade segundo a qual Tanto amou Deus o mundo que lhe deu o seu Filho único, para que todo aquele que creia nele não morra, mas tenha a vida eterna (Jo 3, 16). Precisamente em virtude do amor que tinha pelos homens, desejava que o maior número de povos e de pessoas alcançassem a fé cristã ; só deste modo se explica a sua procura incansável das almas até mesmo nos lugares mais recônditos onde ainda não tinha chegado a Boa-Nova de Jesus ».

A quantidade de pessoas que Francisco Xavier conduz todos os dias à fé é tal, que, com frequência, fica com os braços cansados de tanto baptizar. Sobrecarregado com trabalho, é na solidão da noite que, com mais calma, se consagra aos exercícios religiosos e ao estudo da língua dos nativos. Mas Deus nunca desampara os que O servem :inunda a alma do missionário de consolações celestes, além de lhe conceder o dom dos milagres. Em finais de Outubro de 1543, o padre Xavier decide regressar a Goa em busca de algum reconforto. Ali toma conhecimento – com três anos de atraso – da aprovação por Paulo III da Companhia de Jesus e que Inácio tinha sido eleito seu Geral. Então, faz a profissão solene de votos, segundo a fórmula utilizada pelos seus irmãos de Roma.

Entretanto o padre está consciente de que outras regiões esperam a Boa-Nova. Embora esteja perplexo : deverá perseguir chegar àquelas terras longínquas, onde tantos homens desconhecem o nome de Cristo ? Dirige-se então para junto do túmulo do apóstolo São Tomé, com o objectivo de pedir a Deus que o ilumine. Ali permanece ali durante quatro meses (entre Abril e Agosto de 1545), coadjuvando o pároco, que falará dele nos seguintes termos : « Seguia em tudo a vida dos apóstolos ». « Na santa casa de São Tomé – escreve o missionário aos padres de Goa – dediquei-me a rezar sem interrupção para que Deus Nosso Senhor me conceda sentir na alma a sua santíssima vontade, com a firme resolução de a cumprir… Senti com grande consolação interior que era vontade de Deus que me dirigisse a esses lugares de Malaca, onde recentemente se baptizaram alguns cristãos.

Depois de passar alguns meses na península de Malaca, onde não teme ir ao encontro dos pecadores no seu domicílio, nas casas de jogo e de lenocínio para os reconduzir ao bom caminho, a 1 de Janeiro de 1546, empreende uma travessia de mais de 2000 quilómetros, no decurso da qual evangeliza várias ilhas, em particular a ilha do Moro, onde arrisca a vida no meio de populações canibais. Numa carta dirigida aos confrades da Europa, preocupados por esta aventura, responde-lhes : « É preciso que as almas da ilha do Moro sejam instruídas e que alguém as baptize para que se salvem. Pela minha parte, tenho obrigação de perder a vida do corpo para assegurar ao meu próximo a vida da alma. Irei, pois, à ilha do Moro, para socorrer espiritualmente os cristãos, e encararei qualquer perigo, pondo a minha confiança em Deus Nosso Senhor e n’Ele depositando toda a minha esperança. É meu desejo, na medida das minhas pequenas e miseráveis forças, realizar em mim a prova desta frase de Jesus Cristo, Redentor e Senhor nosso : Quem encontrar a sua vida, perdê-la-á ; e quem perder a sua vida por minha causa, encontrá-la-á (Mt. 10, 39) ».

A salvação integral

O zelo de São Francisco Xavier, que se entregou por inteiro a anunciar o Evangelho a milhares de almas, constitui uma lição e um exemplo para a nossa geração ; recorda-nos a urgência e a necessidade da evangelização, em conformidade com o ensino de São João Paulo II : « A tentação actual é reduzir o cristianismo a uma sabedoria meramente humana, como que uma ciência para bem viver. Num mundo fortemente secularizado, deu-se uma « progressiva secularização da salvação », devido à qual se luta certamente em favor do homem, mas de um homem mutilado, reduzido à mera dimensão horizontal. Em contrapartida, nós sabemos que Jesus veio trazer a salvação integral, que abarca o homem inteiro e todos os homens, abrindo-lhes os admiráveis horizontes da filiação divina. Por quê a missão ? Porque, a nós como a São Paulo, nos foi confiada esta graça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo (Ef. 3, 8). A novidade da vida n’Ele é a « Boa-Nova » para o homem de todos os tempos : a ela foram chamados e destinados todos os homens … A Igreja, e nela, todo o cristão, não pode esconder nem conservar para si esta novidade e riqueza, recebidas da divina bondade para serem comunicadas a todos os homens » (Encíclica Redemptoris missio, 7 de Dezembro de 1990, n.11).

O Japão… e a China

Em Dezembro de 1547, o padre Xavier conhece um nobre japonês chamado Anjiro, que, há cinco anos, andava à procura de um mestre espiritual que pudesse devolver a paz à sua alma. « Descobrimos o padre Francisco Xavier – referirá Anjiro – na igreja de Nossa Senhora da Montanha, onde estava a celebrar um casamento. Senti-me inteiramente fascinado, e contei-lhe toda a minha vida. Ele abraçou-me, e mostrou-se tão encantado por me ver que era evidente que tinha sido Deus quem combinou o nosso encontro ». No decurso das suas conversas, o padre informa-se sobre o Japão. Ao inteirar-se de que « o rei, a nobreza e toda a gente distinta se fariam cristãos, pois os japoneses guiam-se sempre pela lei da razão », isso basta-lhe e decide partir para o Japão.

Entretanto, consciente dos seus deveres de Núncio Apostólico, retoma contacto com as Índias e regressa a Goa, donde partirá a 15 de Abril de 1549 a caminho do Japão. A 15 de Agosto seguinte, desembarca em Kagoshima, onde passa mais de um ano iniciando-se na língua e costumes japoneses. Em finais de 1550, parte para a residência do príncipe mais poderoso do Japão e, de seguida, para a capital. Ali uma grande decepção o espera : o rei, que de facto não é mais que um fantoche, nem sequer o recebe. Não obstante, o padre Javier obtém autorização do príncipe para poder pregar a fé cristã, e teve a consolação de promover algumas centenas de conversões. Mas, de seguida estala uma revolução, o que obriga o missionário a partir. Por não ter notícias das Índias decorridos dois anos, decide voltar a Malaca, onde chega em finais de 1551. É ali que recebe uma carta que Santo Inácio lhe havia escrito há mais de dois anos, nomeando-o « Provincial do Oriente », quer dizer, de todas as missões da Companhia de Jesus desde o cabo Comorim, no sul da Índia, até ao Japão.

A 17 de Abril de 1552, o missionário faz-se de novo ao mar, nessa ocasião com destino à China. Essa viagem, a última da sua vida, será ocasião de grandes renúncias e o aproximará de Cristo sofredor. No início de Setembro de 1552, alcança a ilha de Sancian, a dez quilómetros da costa da China. Os poucos portugueses que aí fazem escala acolhem-no com alegria, constroem-lhe uma cabana de madeira e uma pequena capela de ramagens. De seguida, o padre Xavier começa a ocupar-se das crianças e dos doentes, a pregar, catequizar e confessar. Entretanto, intenta igualmente contactar com algum « passador » chinês que o pudesse conduzir clandestinamente a Cantão. Mas o acesso às costas da China está terminantemente proibido, quem se atrever a desafiar essa proibição sofrerá, se for descoberto, a tortura e a morte. Pelo menos em duas ocasiões, o missionário consegue encontrar um homem que acede conduzi-lo mediante o pagamento de uma avultada soma de dinheiro ; mas das duas vezes, após o pagamento, o « passador » desaparece.

A 21 de Novembro, o padre Xavier celebra a sua última missa. Ao descer do altar, sente-se desfalecer. Intenta fazer-se de novo ao mar, mas o balanço do barco é-lhe insuportável. Conduzido a Sancian, aí passa os últimos dias da vida, meio inconsciente. Privado de medicamentos, e certo de que a morte está próxima, eleva o olhar ao céu e conversa com Nosso Senhor ou com a Virgem Maria : « Jesus, Filho de David, tem piedade de mim – Oh !, Virgem Maria, Mãe de Deus, lembrai-vos de mim ». Exala o último suspiro pronunciando o nome de Jesus, ao amanhecer do dia 2 de Dezembro de 1552. Tinha quarenta e seis anos. O seu corpo foi trasladado para Goa, onde continua a ser venerado pelos fiéis. Francisco Xavier, canonizado ao mesmo tempo que Inácio de Loyola, a 12 de Março de 1622, é o patrono dos missionários católicos.

Quando consideramos a vida deste grande santo, de imediato nos vem à mente a quantidade de trabalhos e sofrimentos que teve de suportar. O seu segredo encontra-se num amor sem limites por Jesus. Nos Exercícios Espirituais, Santo Inácio ensinou-lhe a escutar o chamamento de Cristo : « A minha vontade é conquistar o mundo inteiro e submeter todos os inimigos, e assim entrar na glória de meu Pai. Quem quiser vir comigo tem de trabalhar comigo, para que, seguindo-me na dor, também me siga na glória » (Exer. Espir. 95). Na sua docilidade, Francisco Xavier mostrou-se « pronto e diligente para cumprir a santíssima vontade de Jesus » (ibid. 91) ; a seu modo entregou-se por inteiro a todos os trabalhos a fim de estender o reino de Deus sobre a terra. Que nos obtenha a graça de sermos como ele, zelosos com a salvação eterna do próximo. 

Dom Antoine Marie osb