Carta

Blason   Abadia de São José de ​​Clairval

F-21150 Flavigny-sur-Ozerain

France


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8 Dezembro 2019
festa de la Imaculada Conceição


Caro amigo da Abadia de São José

Numa rua de Dublin (Irlanda), na manhã do dia 7 de Junho de 1925, domingo da Santíssima Trindade, um homem, ao dirigir-se a uma igreja próxima, cai subitamente por terra e morre. O seu corpo, conduzido ao hospital, é lavado por uma religiosa enfermeira ; grande é o seu espanto quando descobre, ao tirar a roupa ao defunto, umas correntes com medalhas suspensas, enroladas duas vezes à volta da cintura. Outras cadeias rodeiam as pernas e os braços. Apesar de estarem oxidadas e cravadas na pele, o corpo apresenta um estado de grande limpeza. Mas, quem era esse homem ? Era um louco ou um santo ?

Da cerveja ao whisky

Matt Talbot nasceu em Dublin em Maio de 1856, sexto filho de uma família de doze irmãos. Ainda muito novo, entra na escola dos Irmãos da Doutrina Cristã, onde não tem grande aproveitamento escolar. Com a idade de doze anos, começa a trabalhar numa empresa de engarrafamento de cerveja. Nesse ambiente onde abunda o álcool depressa é induzido, a exemplo de muitos outros empregados, a « esvaziar garrafas ». Ao vê-lo regressar a casa, todas as tardes, anormalmente alegre, o pai toma a decisão de o afastar desse ambiente e encontra-lhe um outro trabalho, sob sua própria vigilância, na área do porto e das docas. Mas a situação de Matt agrava-se, pois adquire o costume de blasfemar e usar a linguagem rude dos estivadores ; para cúmulo, os novos companheiros de trabalho iniciam-no na bebida do whisky. O pai tenta persuadi-lo, inclusive, por vezes, com algum açoite, mas nada consegue. Ante o desespero dos pais, Matt afasta-se da autoridade paterna e soçobra no alcoolismo. Felizmente que o jovem possui um grande coração. Ao compreender o desgosto que inflige ao pai, deixa o trabalho das docas e começa a trabalhar de pedreiro. Passa então as noites na taberna, regressando quase sempre bêbado e desbaratando todo o salário na bebida. Afunda-se a tal ponto no vício que, por vezes, recorre ao roubo para conseguir dinheiro para o álcool.

O seu corpo vai-se lentamente destruindo, mas mais grave ainda é o pecado que mata a alma, pois que o uso imoderado da bebida ofende o Criador. Através do alcoolismo, ou do uso das drogas, o homem priva-se voluntariamente do uso da razão, o mais nobre dos atributos da natureza humana. Esta desordem, quando se consuma com conhecimento de causa e de forma voluntária, constitui uma falta grave contra Deus, assim como contra o próximo, visto que, em estado de embriaguez, as pessoas expõem-se a ofendê-lo gravemente. Como qualquer outro pecado grave, um tal abuso acarreta a perda do estado de graça, que é o maior infortúnio que pode suceder ao ser humano. Com efeito, não há bem mais precioso para o homem que a amizade de Deus, e ela perde-se quando se comete um pecado grave. Nosso Senhor protege os seus discípulos contra essa desgraça : Se alguém não permanece em mim, é lançado fora, como um ramo, e seca. Tais ramos são enfeixados e lançados ao fogo para arderem (Jo. 15, 6). Mediante essas palavras, Jesus revela-nos o destino que se reserva a quem recusa a amizade de Deus que se oferece a todo o homem em virtude da Encarnação redentora. Essa recusa conduz à morte eterna, ao inferno, acerca do qual o Catecismo da Igreja Católica (CIC) diz o seguinte : « Jesus fala muitas vezes da « gehena » do « fogo que não se apaga » reservada aos que recusam, até ao fim da vida acreditar e converter-se, e na qual podem perder-se, ao mesmo tempo, a alma e o corpo. Jesus anuncia, em termos graves, que « enviará os seus anjos que tirarão do seu Reino (…) todos os que praticam a iniquidade, e hão-de lançá-los na fornalha ardente » (Mt 13, 41-42), e sobre eles pronunciará a sentença : « afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno » (Mt 25, 41).

A doutrina da Igreja afirma a existência do Inferno e a sua eternidade. As almas dos que morrem em estado de pecado mortal descem imediatamente, depois da morte, aos infernos onde sofrem penas eternas, « o fogo eterno ». A principal pena do inferno consiste na separação eterna de Deus, único em Quem o homem pode ter a vida e a felicidade para que foi criado e a que aspira.

As afirmações da Sagrada Escritura e os ensinamentos da Igreja a respeito do Inferno são um apelo à responsabilidade com que o homem deve usar da sua liberdade, tendo em vista o destino eterno. Constituem, ao mesmo tempo, um apelo urgente à conversão : « Entrai pela porta estreita, pois larga é a porta e espaçoso o caminho que levam à perdição, e muitos são os que seguem por eles. Que estreita é a porta e apertado o caminho que levam à vida e como são poucos aqueles que os encontram (Mt 7, 13-14) » (CIC, 1034-36).

A renúncia ao pecado e a conversão a Deus são necessários para todo aquele que anseia pela vida eterna. À pergunta que formula o jovem, Mestre, que hei-de fazer de bom para possuir a vida eterna ?, Jesus responde : Se queres entrar na vida eterna, observa os mandamentos (Mt 19, 16-17). É também a linguagem de São Bento ao discípulo que se apresenta para entrar na vida monástica : « O Senhor espera que cada dia respondamos com as nossas obras aos seus ensinamentos. Para isso concede-nos como trégua os dias da nossa vida, para nos emendarmos dos nossos pecados, conforme diz o Apóstolo : Ignoras que Deus te convida à penitência ? Efectivamente, o Senhor diz-te com a sua inesgotável benignidade : Não quero a morte do pecador, mas que se converta e viva… Portanto, devemos preparar os nossos corações e os nossos corpos para o combate da santa obediência e seus preceitos. E como isto não é possível devido à fraqueza da nossa natureza, temos de pedir ao Senhor que se digne conceder-nos a assistência da sua graça. E se, desejosos de evitar as penas do inferno, queremos alcançar a vida eterna, enquanto estamos a tempo e temos este corpo como domicílio e podemos cumprir todas estas coisas à luz da vida, corramos e façamos, desde já, o que reresultará em nosso proveito por toda a eternidade » (Regra, Prólogo). É por isso que não devemos adiar a nossa conversão, como advertia São João Crisóstomo : « Pensai na vossa salvação, não tardeis em vos converterdes ao Senhor, fazei-o sem demoras (Si 5, 7) ; pois não sabeis o que ocorrerá no dia de amanhã… Comestes ou bebestes em excesso ?, praticastes rapina ? Detende-os agora e arrepiai caminho ; dai graças a Deus por não vos ter arrebatado em estado de pecado… Considerai que se trata do interesse da vossa alma… » (Homilia sobre a segunda Epístola aos Coríntios).

Um golpe de graça

Apesar de o seu estado de envelhecimento, Matt conserva alguma decência : não mantém nenhuma relação condenável ; todas as manhãs, quaisquer que tenham sido os excessos da véspera, às seis já está levantado para se dirigir ao trabalho ; por último, continua fiel à Missa dominical, mesmo que não receba os sacramentos. Um sábado de 1884, a graça de Deus bate à sua porta. Depois de se encontrar desempregado durante uma semana, Matt, com 28 anos de idade, vê-se sem dinheiro e impossibilitado de comprar bebidas. Mas a dependência atormenta-o. Pelo meio-dia, na companhia do irmão mais novo, Filipe, encosta-se na esquina de uma rua por onde passam os trabalhadores depois de terem recebido o salário, na esperança de que algum o convide a beber um copo. Os operários passam, saúdam-no, mas ninguém o convida. Matt sente-se ferido no seu amor-próprio : estar privado de álcool é para ele muito penoso, mas o que mais lhe custou nesse dia foi ver a dureza dos seus companheiros, a quem frequentemente convidava para uma bebida na taberna. Imediatamente, regressa a casa, onde a mãe o recebe surpreendida por vê-lo chegar tão cedo, e sem ter bebido. A mãe ! e vem à mente de Matt quão ingrato tem sido para com ela. Não tem entregue quase nada aos pais para gastos familiares (gastava todo o dinheiro na bebida !) e agora, sente-se culpabilizado por tê-los deixado sofrer sozinhos, enquanto bebia de forma egoísta. Na Irlanda daquela época acontecia, com alguma frequência, que um homem que pretendesse deixar a bebida fizesse uma promessa. Após a refeição, encontrando-se só com a mãe, Matt diz de repente : « Vou fazer votos de temperança. – Por amor de Deus ! Fá-lo, mas não o formules se não o queres cumprir. –Pronunciá-lo-ei, em nome de Deus ». Após se ter vestido de uma forma esmerada, dirige-se ao Colégio de Santa Cruz, pede para falar com um sacerdote e confessa-se ; seguindo o prudente conselho deste, Matt formula votos por um período de três meses. No dia seguinte, dirige-se à igreja de São Francisco Xavier para assistir à Missa das cinco horas e aí comunga. Sente-se uma pessoa renovada. Mas, para permanecer fiel aos votos, a luta será terrível ; além disso, Matt decide obter da comunhão diária a força espiritual de que necessita para poder cumprir a sua promesa. O momento mais difícil é à tarde, após o trabalho. Para evitar a tentação, o novo converso faz caminhadas pela cidade. Acontece que, um dia, entra numa taberna com um grande grupo de clientes. Atarefado, o empregado parece ignorar Matt que, ofendido por esta desatenção, sai a toda a pressa, decidido a nunca mais pôr os pés numa taberna.

« Continuarei a beber ? »

Aquando dos seus passeios, Matt dá-se conta de outra dificuldade : o álcool debilitou-lhe a saúde, cansa-se facilmente. Então, entra numa igreja e, de joelhos diante do sacrário, põe-se a rezar, suplicando a Deus que o fortaleça. Desse modo adquire o costume de frequentar a casa de Deus. Apesar disso, os três meses são longos, pois as consequências da falta de álcool (alucinações, depressão e náuseas) fazem que esse tempo seja um verdadeiro calvário. Por momentos, a antiga dependência desperta, pelo que não tem outro remédio além da luta desesperada e de prolongar as orações. Um dia, de regresso a casa, deixa-se cair numa cadeira e diz com tristeza à mãe : « É inútil, mamã, quando se cumpletarem os três meses voltarei a beber… ». Mas ela reconforta-o e anima-o a rezar. Seguindo este conselho à letra, Matt toma o gosto à oração e encontra nela a salvação. Efectivamente, a oração ajuda a que saiamos de situações humanamente desesperadas. Para Deus tudo é possível (Mt 19, 26). Santo Afonso Maria de Ligório, doutor da Igeja, afirma : « A graça de orar é dada a toda a gente, de sorte que se alguém se perder, não tem desculpa… Orai, orai, orai, e não abandoneis nunca a oração, pois quem ora certamente se salva, quem não ora certamente se condena » (cf. CIC, 2744). Cumpridos os três meses, surpreendido por ter aguentado a situação, Matt renova o seu voto por mais seis meses, no termo dos quais se comprometerá a nunca mais beber álcool.

Matt iniciou uma nova vida, uma vida de intimidade com Deus, na qual a Missa diária é o principal pilar. Mas, em 1892, é suprimida a Missa das cinco na qual costuma comungar ; a partir de então, a primeira Missa do dia é às seis e um quarto. Apesar da grande mestria que adquiriu no trabalho, não duvida em mudar de emprego, e começa como simples servente num comerciante de madeira, onde o trabalho nunca começa antes das oito. A sua nova tarefa consiste em carregar os camiões. No fim do dia de trabalho, lava-se com esmero, veste a roupa de sair–pois não quer entrar na casa de Deus com a roupa de trabalho– e dirige-se à igreja para visitar o Santíssimo Sacramento. Um dia, diz ao seu confessor : « Desejei muito o dom da oração, e foi-me plenamente concedido ». Daí em diante, a sua existência é totalmente orientada para Deus, e mais especialmente para a presença real do Senhor no Sacrário. « Enquanto a Eucaristia for conservada nas igrejas e oratórios, Cristo é verdadeiramente o Emmanuel, quer dizer, Deus connosco —escrevia São Paulo VI. Porque dia e noite está no meio de nós, habita connosco cheio de graça e de verdade ; ordena os costumes, alimenta as virtudes, consola os aflitos, fortalece os débeis, e convida a imitá-Lo todos os que d’Ele se aproximam, de modo que com o seu exemplo aprendam a ser mansos e humildes de coração, a procurar não os própios interesses, mas os de Deus. E assim, todo o que se volte para o venerável Sacramento Eucarístico com particular devoção, e se esforce por amar com coração disponível e generoso a Cristo que nos ama infinitamente, experimenta e compreende plenamente, com muita alegria interior e proveito de espírito, quão preciosa é a vida escondida com Cristo em Deus ; e sabe quão precioso é dialogar com Cristo : porque, na Terra, nada existe que seja mais doce, mais eficaz para progredir nos caminhos da santidade » (Encíclica Mysterium fidei, 3 de Setembro de 1965).

Significado das cadeias

Matt Talbot tem uma grande devoção pela Mãe de Jesus, que se manifesta diariamente com a oração do Rosário e o ofício da Virgem. No ano de 1912, lê o Tratado da verdadeira devoção à Virgem, de São Luís Maria Grignion de Monfort, com quem aprende a praticar a “Santa Escravidão” mediante a plena consagração pessoal e de todos os seus bens ao serviço de Maria. Como meio prático para viver no espírito deste apego filial a Maria, São Luís Maria recomenda que se use uma pequena corrente. Esse é o significado das correntes encontradas no corpo de Matt Talbot depois da sua morte.

Sendo de carácter impulsivo, Matt dificilmente suporta as blasfémias e a linguagem grosseira dos companheiros. Quando blasfemam contra o Santo Nome de Deus, levanta o chapéu em sinal de respeito. Ao verem aquele gesto, os companheiros repetem os palavrões. A princípio, Matt repreende-os com dureza, depois limita-se a dizer-lhes com doçura : « Jesus cristo está a ouvir-vos ». Numa ocasião, repreende com firmeza o capataz por ser pouco generoso com uma subscrição caritativa. O patrão chama-o à ordem e, no dia seguinte, Matt apresenta-se diante do chefe : « Nosso Senhor –declara– disse-me que devia pedir-lhe desculpa, é para isso que aqui estou ». A sua vida exemplar acabou por inspirar respeito, e ele, além disso, demonstra ser um companheiro cordial, sempre disposto a ser o primero a apreciar uma boa piada, contanto que se mantenha nos limites da decência.

« Você usa uma roupa muito fraca »

À imitação dos antigos monges irlandeses que seguiam a tradição de São Columbano, Matt Talbot impôs-se a seguir um regime alimentar ascético, como expiação dos seus pecados e como mortificação para potenciar a vida espiritual. Mas, quando os seus amigos o convidam, come como todos. Ingressa na Ordem Terceira de São Francisco, aplicando-se a imitar a pobreza de Cristo, reduzindo os gastos ao estritamente necessário e dando o resto aos pobres. No início da sua conversão, tinha o hábito de fumar. Um dia, um companheiro pede-lhe um cigarro. Acabava precisamente de comprar um cachimbo e uma porção de tabaco, mas, como gesto heróico, entrega-lhe ambas as coisas e daí em diante nunca mais fumará. Normalmente usa roupa fraca e gasta, um dia oferecem-lhe um fato novo ; quer recusá-lo, mas o seu confessor intervém : « Talbot, usa uma roupa muito gasta, e acabam de lhe oferecer um fato novo… – Padre, prometi a Deus nunca usar um fato novo. – Mas se é precisamente Deus quem lhe envia este !, replica o sacerdote. – Bem, nesse caso, se é Deus quem mo envia, usá-lo-ei ».

O único luxo de Matt são os livros, ocupando o tempo disponível a ler. As suas leituras preferidas são a Sagrada Escritura e os escritos dos santos. Ao folhearem a Bíblia que se encontrava na sua casa após a sua morte, constataram que sentia certa predilecção pelos Salmos, em especial pelos Salmos penitenciais, nos quais o pecador expressa a Deus o remorso pelos seus pecados, mas também a sua confiança inquebrantável na misericórdia divina : Tem compaixão de mim, ó Deus pela tua bondade ; pela tua grande misericórdia, apaga o meu pecado. Lava-me de toda a iniquidade, purifica-me dos meus delitos…. Dá-me de novo a alegria da tua salvação (Salmo 51 [50] “Miserere”). Algumas das suas anotações revelam um nível de pensamento surpreendente para um homem de instrução tão rudimentar. Encontram-se as seguintes reflexões : « O tempo da vida não é mais que uma caminhada até à morte, na qual a nenhum homem é permitido deter-se… A liberdade de espírito adquire-se se nos libertarmos do amor-próprio, o que faz com que a alma esteja disposta a cumprir a vontade de Deus nas mais pequenas coisas… O uso da vontade consiste em fazer o bem, e o abuso consiste em fazer o mal… Na meditação buscamos a Deus pela razão e pelos actos meritórios, enquanto que na contemplação o descobrimos sem esforço… Esta vida de oração e de penitência é confortada por algumas graças fora do comum. Um dia, conta isto à irmã : « Que triste é comprovar o pouco amor dos homens para com Deus !… Oh, Susana ! Não imaginas a alegria que sentia na noite passada ao conversar com Deus e com a sua Santa Mãe ! » ; mas, ao dar-se conta que falava de si mesmo, muda de conversa.

O período compreendido entre 1911 e 1921 é muito turbulento na Irlanda : conflitos laborais acentuados pelo desemprego e pelas greves, luta pela autonomia política, primeira guerra mundial e, finalmente, guerra entre a Irlanda e a Inglaterra. No meio dessas tribulações, Matt mantém a alma em paz, embora muito interessado com a causa dos trabalhadores. Condena sem paliativos a insuficiência dos salários dos trabalhadores casados, a quem ajuda economicamente quanto pode. Mas nunca reclama nada para si. Quando os companheiros deixam o trabalho ou são despedidos, mostra solidariedade com a sua causa.

« Dar graças ao “Grande Curandeiro” »

À idade de sessenta e sete anos, Matt Talbot encontra-se fisicamente debilitado : a sufocação e as palpitações do coração obrigam-no a reduzir a actividade. Após duas permanências no hospital em 1923 e 1925, recupera um pouco e retoma o trabalho. Durante esses ingressos, sempre que pode dirige-se à capela. A uma religiosa que o repreende pelo sobressalto que lhe causou por não o ter encontrdo no quarto, responde sorrindo : « Já agradeci às religiosas e aos médicos, acaso não era justo agradecer ao “Grande Curandeiro” ? ». No domingo, 7 de Junho de 1925, dirige-se para a igreja do Salvador. Cansado, cai no passeio. Uma mulher oferece-lhe um copo de água. Matt abre os olhos, sorri e deixa cair a cabeça : é o grande encontro tão desejado com Cristo, que não veio chamar os justos mas os pecadores (Mt 9, 13). Em 1975, Matt Talbot recebeu o título de “Venerável”. Na actualidade, numerosas obras destinadas a socorrer as vítimas do álcool e da droga têm-no como patrono.

Matt Talbot é modelo para todos os homens. Às vítimas do alcoolismo ou da dependência das drogas mostra-lhes através do seu exemplo que, com a graça de Deus, é possível superar essas dependências. « A dependência do álcool é por vezes tão forte que as pessoas mais próximas do alcoólico podem pensar que este nunca será capaz de a superar, e o próprio alcoólico tem a tentação de desesperar. Nesses momentos é bom ter presente a Ressurreição de Jesus, que nos recorda que o fracasso nunca é a última palavra de Deus » (Comissão social dos bispos de França, declaração de 1 de Dezembro de 1998). Aos que são escravos de outros pecados (idolatria, blasfémia, aborto, eutanásia, contracepção, adultério, libertinagem, homossexualidade, masturbação, roubo, falso testemunho, difamação, etc.), recorda-lhes que « nunca se deve desesperar da misericórdia de Deus », segundo a recomendação de São Bento (Regra, cap. IV). Nosso Senhor prometeu a Santa Margarida Maria que os pecadores encontrariam no seu Coração a fonte e o oceano infinito da misericórdia. Do mesmo modo que é própio de um navio navegar sobre a água, assim também é próprio de Deus perdoar e ser misericordioso, como o afirma a Igreja numa das suas orações. Também Santa Teresinha, doutora da Igreja, escreveu o que se segue no final dos seus manuscritos : « Mesmo que em consciência tivesse todos os pecados que se podem cometer, iria, com o coração arrependido, lançar-me nos braços de Jesus, pois sei quanto ama o filho pródigo que volta para Ele ». E acrescentava de viva voz : « Se tivesse cometido todos os crimes possíveis, teria sempre a mesma confiança, sentiria que esta multidão de ofensas seria como uma gota de água numa fogueira ardente ». A vida de Matt Talbot prova de maneira eloquente que se dirigimos com sinceridade a nossa alma ao Senhor para lhe pedirmos perdão, podemos, através do sacramento da Penitência, via ordinária de reconciliação com Deus, começar uma nova vida sob o olhar maternal de Maria.

Venerável Matt Talbot, concede-nos a graça de confiarmos na misericórdia divina e de irmos até ao limite das exigências de um amor apaixonado por Jesus e por Maria.

Dom Antoine Marie osb