Carta

Blason   Abadia de São José de ​​Clairval

F-21150 Flavigny-sur-Ozerain

France


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8 Setembro 2020
festa da Natividade de Nossa Senhora


Caro amigo da Abadia de São José

No termo de uma representação organizada, em pleno século xx, por uma actriz que recebeu estrondosos aplausos nas paróquias e patronatos católicos, um director de teatro profisssional, surpreendido e admirado, pergunta-lhe : « Senhora, esse seu riso, que enche de alegria toda a sala, é aprendido ou é um riso natural ? ». A resposta brotou numa magnífica e espontânea gargalhada : « Senhor, apenas tenho um riso, e é este ! ». Até ao final da vida, o sucesso que poderia trazer ao cinema atravessou por um instante o espírito de Gabriela Bossis, mas a voz de Jesus interrompeu-a de imediato : « Guardo-te para mim ! ». Com efeito, já que Gabriela é privilegiada, desde meados dos anos 1930, por uma vida mística, mediante diálogos interiores com Jesus, que a chama a manter com Ele uma intimidade muito particular.

Gabriela, a última de uma família de quatro filhos, nasceu a 26 de Fevereiro de 1874 no palacete de seus pais, em Nantes. O irmão, Augusto, e as duas irmãs, Clemência e Maria, são sensivelmente mais velhos que ela. Além do património imobiliário da família, o pai gere um negócio de peças para reparação de barcos. No Verão, os Bossis deixam Nantes para passar as férias na propriedade da família nas margens do Loire, em Ingrandes (França). A senhora Bossis é pródiga em atenções para com a sua benjamim, dando-lhe uma excelente educação cristã. É uma mulher tão piedosa que o marido diz dela, rindo : « Creio que reza o rosário inclusive quando estamos a comer ». Mas, a sua filhinha é demasiado tímida e, durante muitos anos, assustava-se com os jogos ruidosos, chora sem cesar e teme as reuniões com muita gente nas quais tem de estar presente. Mas não a pressionam, e a sua sensibilidade encontra um refúgio em Jenny, a ama ao serviço da família.

O ambiente cristão que rodeia a pequena “Gaby”, como lhe chamam em família, permite que a fé recebida no Baptismo floresça espontaneamente em forma de orações infantis, que às vezes anota num caderno : « Falai, Senhor, que a vossa serva escuta ! ». O Senhor não esquece nenhum dos impulsos do seu coração para com Ele, e lhos recordará mais tarde : « Recordas-te ? Quando eras pequena disseste-Me : “Senhor, fazei que o meu coração se incline perante as palavras da Vossa boca”. E eu disse-te : “Conta-Me o que fizeste hoje”. Mas não acreditaste que era a Minha voz… ».

O amigo mais querido

Jesus está ansioso por manter uma relação pessoal com cada um de nós, como nos ensina Santo Afonso Maria de Ligório : « Habituai-vos a falar a sós com Deus, familiarmente, com confiança e amor, como com o amigo mais querido que tenhais, e o mais afectuoso… Perguntai às almas que O amam com verdadeiro amor, e dir-vos-ão que, nas tribulações da vida, encontram a melhor e mais sólida consolação falando amorosamente com Deus. Não se vos exige que apliqueis continuamente o pensamento, de forma que vos esqueçais dos vossos trabalhos, ou mesmo do vosso tempo de descanso. A única coisa que se vos pede, é que, sem descuidar as vossas obrigações, vos comporteis com Deus como agis, nas diferentes circunstâncias que se apresentam, com as pessoas que vos amam e que amais » (Modos de conversar com Deus, 6-7).

Em Nantes, Gabriela é educada numa escola dirigida por religiosas, onde faz a primeira Comunhão com a idade de doze anos, a 10 de Junho de 1886. Nesse dia, o que a mantém recolhida não é a timidez, mas a presença de Jesus : « O dia da tua primeira Comunhão — recordar-lhe-á o Senhor— não ousavas mover-te, pois sabias perfeitamente que Eu estava em ti ». E numa ocasião em que Ele lhe suplica : « Nunca me abandones, pois deveremos ser sempre um para o outro », ela responde com suavidade : « Mas, Senhor, acaso não tem sido sempre assim, desde o dia da minha primeira Comunhão ? ».

No fim da adolescência, transformada numa jovem de cabelos morenos, exterioriza-se pouco a pouco. O pai morre em 1898 ; a mãe leva-a então a passar os Invernos a Nice, com a irmã Clemência, para aí cuidar da saúde. Gabriela desenvolve as mais diversas aptidões : gosta de passear a pé, a cavalo ou de bicicleta, assiste a aulas de dança e de piano, de escultura e de pintura. Pouco a pouco tenta superar a timidez da infância, esquecendo-se de si mesma ao espalhar alegria à sua volta. Mas, a sua vida interior está à prova : « Julgavam-me superficial na minha juventude, mas era o momento em que suportava os maiores sofrimentos da alma ». Procura de todo o coração a vontade de Deus, e um sacerdote sugere-lhe que ingresse no convento das Clarissas. Não obstante, compreendendo que não era o caminho pelo qual o Senhor a quer conduzir, decide permanecer celibatária no mundo. Gabriela, que entretanto continua vinculada à espiritualidade franciscana, torna-se Terceira de São Francisco, com o nome de irmã Maria do Coração de Cristo. Esforça-se por viver pobremente : a sua alimentação é frugal e evita qualquer gasto supérfluo. Já septuagenária, na ocasião de uma peregrinação a Lourdes, contenta-se em dormir num pequeno reduto iluminado por uma fresta e onde apenas cabe uma cama desdobrável. Alguns apelidam-na de avarenta, pois a sua generosidade para com as Missões e os mais pobres é discreta. Porém, a sua caridade “esquece” por vezes de receber as rendas dos seus inquilinos que se encontram em dificuldades. « Sabes qual é o Meu inimigo ? —perguntar-lhe-á um dia Jesus —. É o dinheiro ! Pensa-se mais nele do que em qualquer outra coisa. Vive-se apenas para ele. O dinheiro endurece o coração sem o preencher. Somente Eu, entende-o, somente Eu dou alegria ».

O génio da alegria

Gabriela é uma jovem radiante, esbelta e graciosa, que não deixa ninguém indiferente ; dela emana um encanto conquistador na sua simplicidade. Por isso teve muitíssimos – mais de setenta – pretendentes e todos recusou. Apesar de muito sociável não é insensível aos atractivos do mundo, de que terá com frequência de defender-se. Um dia, Jesus inclusive suplicou-lhe para lhe guardar o seu coração : « Quando não estás em recolhimento, estás a afastar-te de Mim. Que a tua vida seja uma constante oração, um incessante diálogo com o teu Senhor. Porque Me abandonas ? Eu não te abandono. Não voltes ao mundo, pois não teria o teu pensamento ». Mas, nem por isso deseja que essa intimidade a impeça de comunicar com os demais através da sua alegria : « Deves dar alegria… Não sentes que essa é a tua missão ?… Sê o génio da alegria ! ».

Em 1908, a mãe entrega a alma a Deus ; quatro anos mais tarde, foi a irmã Clemência que deixou este mundo. Visto que a outra irmã e o irmão tinham casado há já alguns anos, Gabriela sentiu muito a solidão. O património imobiliário herdado dos pais fornece-lhe recursos económicos suficientes, mas não permanece ociosa e ocupa o tempo numa confecção de paramentos litúrgicos para as Missões. Após obter o diploma de enfermeira, dedica-se, durante a Primeira Guerra Mundial, ao cuidado dos doentes e feridos, primeiro nos hospitais da região e depois em Verdun. Em todo o lado, o seu serviço é apreciado pela sua inteligência, prontidão e calor humano que aplica. Contudo, a família não está a salvo da terrível hecatombe do conflito mundial : em 1918, Gabriela chora a perda do sobrinho João Caron, seu preferido, caído em Verdun. Todos os seus sobrinhos e sobrinhas, e depois os filhos, encontram bom acolhimento no seu generoso coração, sendo bem-vindos à casa da “tia Gaby” durante as férias, em Le Fresne-sur-Loire. No jardim que dá para o rio Loire, por vezes interrompe uma merenda ou os jogos de seus pequenos hóspedes para lhes dizer : « Chiu ! Escutai o silêncio ! ».

Trocar os elefantes por gazelas

Em 1923, o pároco de Fresne pede-lhe que escreva uma peça de teatro para os jovens da paróquia. Além de a escrever, interpreta e baila com os jovens. O êxito é enorme, pelo que Gabriela é solicitada a representar a peça noutras paróquias, e depois que escreva novas peças. Assim pois, entre 1923 e 1936 escreve treze comédias em três actos, e catorze sainetes, que interpretará até 1948. Os seus dotes de actriz, o seu sentido de representação, o seu gosto original e a sua graça pela dança conquistam o público. Através das lágrimas e do riso, transmite a mensagem do Evangelho em diversos patronatos, muito numerosos na época. É também Gabriela quem confecciona as roupas e prepara os cenários, dispondo por vezes de muito pouco tempo para formar os jovens actores improvisados. « Não se preocupe com os bailados —escreve a um correspondente—. Ensiná-los-ei num quarto de hora. Estou acostumada aos elefantes que se transformam em gazelas ». Quando em 1929, em Paris, o padre jesuíta Parvillez assiste pela primeira vez a uma das suas representações, partilha plenamente o comentário feito pelo pároco da localidade : « É admirável o espírito da menina Bossis, mas é ainda mais admirável o espírito de fé que a anima ». A partir desse momento, establece-se uma correspondência entre Gabriela e o jesuíta.

Além do envolvimento pessoal na preparação dessas “tounées”, cujos gastos ela mesma assume, Gabriela suporta de bom grado todas as incomodidades das viagens, as noites passadas nas estações ou nos comboios, a dormir em cima das malas ou num banco, renunciando por vezes ao sono e às refeições regulares. « Os sofrimentos que passaste perdem-se na tua memória — assinalará um dia Jesus—, mas permanecem frutuosos diante de Mim. Já esqueceste as fadigas das viagens, os desconfortos das temperaturas, a sede dos desertos, os temores, os exílios longínquos, os lentos regressos, os grandes ânimos e os momentos de enfermidade. Recorda que me ofereceste tudo e que tudo guardei ». Muitas das pessoas que se encontram com esta mulher elegante e original, sempre vestida de branco, com os seus chapéus de abas largas e blusas fora de moda, ficam-se nas aparências, invejando-a e pensando que tudo é fácil para esta actriz que se tornou famosa. Outras pessoas criticam-na, mas Gabriela segue o conselho de Jesus : « Não te preocupes com o que dirão ; faz o que deves fazer ». O seu segredo revela-se numa vida de oração intensa e ao mesmo tempo escondida. Inclusive quando se desloca, nunca deixa de participar, sempre que lhe é possível, na Missa diária, mesmo à custa de ter de se levantar ainda de noite e de percorrer a pé vários quilómetros. Além dos rosários, da Via Sacra e da oração quotidiana, esforça-se todas as quintas-feiras, para passar uma hora, na igreja, na companhia de Jesus presente no sacrário. Gosta de O contemplar na sua dolorosa Paixão, nos Evangelhos ou nos escritos dos místicos, especialmente nos da beata Ana Catarina Emmerich ou da Irmã Josefa Menendez.

É muito simples !

Para se esquecer de si mesma e pensar continuamente em Jesus, Gabriela faz com que o seu corpo participe dos sofrimentos padecidos por Cristo durante a sua vida terrena. Daí que se tenha acostumado a dormir envolta numa simples colcha no chão, na casa, que nunca aquece. Um dia, animada pelo propósito de exortar um sacerdote ao fervor, esquece a sua rigorosa discrição acerca de si mesma e exclama : « Mas, senhor padre, é necessário mortificar-se para ir para o Céu ! É necessário mortificar-se… é muito simples ! ». A acompanhar estas palavras, mostra um instrumento de penitência que usa em contacto com a pele. Tais mortificações não são, de forma alguna, produto de uma inclinação natural, mas o sinal de uma fidelidade a uma inspiração de Cristo, seu Bem-Amado, que às vezes deverá dar-lhe ânimo : « Nunca satisfazer plenamente um desejo, mas reservar uma parte para a mortificação : a Minha parte ». E uma vez que sente preguiça de retomar o costume de dormir no chão, diz-lhe : « Acaso pensas que não fiz um esforço para morrer na Cruz ? ». Ou, quando deixou de usar o cilício, dir-lhe-á : « Eu não tirei a coroa de espinhos ! ».

Em 1934, prepara a sua sepultura e manda pôr uma lápide : « Oh, Cristo, meu Irmão. Trabalhar junto de Ti. Sofrer contigo. Morrer por Ti. Sobreviver em Ti ». E anota num caderno : « Estou a preparar a minha sepultura. Quisera que, ao passar junto de mim, as passoas tivessem um bom pensamento, que Cristo falasse através dos meus ossos ressequidos ». Dois anos mais tarde, no transatlântico Île-de-France, que a leva de passeio pelo Canadá, Jesus começa a falar-lhe claramente no fundo da alma, e inicia o diário de viagem. No fim de uma Missa, escreve : « Bem sabes [Jesus] que tudo é por Ti, embora eu não o diga : “Deves dizer-me, porque me agrada ouvi-lo. Di-lo frequentemente. Do mesmo modo que, quando sabes que alguém te ama, ficas contente de que te o digam” ». As transcrições desses diálogos tornam-se cada vez mais frequentes durante essa longa viagem ao outro lado do Atlântico. Em breve o Senhor comunica-lhe : « Somente te peço que escrevas. Não é muito difícil. Estou contigo. Sê-Me fiel. Eu também te sou fiel ». Entretanto, depois disso, não escreverá mais diários das suas numerosas viagens, que a levam não somente através de toda a França até à Córsega, mas inclusive a Itália, a África, Istambul e à Palestina. O seu silêncio é obediência : « Não fales mais das tuas viagenes, pois elas são para mim ».

« Quanto te amei ! »

D

esde há muito que Jesus tinha preparado Gabriela para esta graça mística especial dos diálogos interiores. Em Janeiro de 1941 dir-lhe-á : « Recordas-te ? Quando eras pequena e Me procuravas, ias esconder-te no quarto escuro, atrás da cozinha da tua avó… E quando perguntavam : “Onde está Gabriela ?”, tu pensavas : “Estou com Deus”. E recordas-te também que, durante as tardes de Verão em Fresne, ias só para o terraço, à Minha procura, entre o rio Loire e as estrelas, e dizias : “Vou pensar…”. Era a Mim que procuravas. E eu deixava-Me apanhar, mas ainda não o sabias. Ah ! Quanto te amei, minha filhinha ! ». Mas desde que este diálogo interior se torna mais claro e intenso, Gabriela perturba-se e pergunta se isto não é fruto da sua imaginação. Confidencia ao padre Parvillez, e este sacerdote, de discernimento prudente, confirma-lhe a sua origem divina. « O progresso espiritual —ensina o Catecismo da Igreja Católica — tende para a união cada vez mais íntima com Cristo. Esta união chama-se « mística », porque participa no mistério de Cristo pelos sacramentos —« os santos mistérios » — e, n’Ele, no mistério da Santíssima Trindade. Deus chama-nos a todos a esta união íntima com Ele, mesmo que graças especiais ou os sinais extraordinários desta vida mística somente a algunos sejam concedidos, para manifestar o dom gratuito feito a todos » (CIC, núm. 2014). Desse modo, os diálogos tidos com Gabriela proporcionarão o bem espiritual de um grande número de pessoas quando forem publicados.

Em 1938, as suas peregrinações teatrais levam-na à Argélia, onde visita o túmulo de Charles de Foucauld. Em Junho de 1940, a invasão alemã surpreende os franceses. A ocupação, a tomada de reféns e as requisições de imóveis forçam os habitantes a um êxodo repentino. Gabriela deixa a casa, foge num camião de gado e refugia-se em Curzon, no departamento da Vendeia, onde continua a transcrever os diálogos com Jesus : « Quanto eu rezava para obter a vitória, Jesus perguntou-me : “Queres a salvação do país ou a salvação das almas ? Considera esta como o mais importante… Não temas. Se os alemães vierem, sou Eu em ti quem os receberá” ». No final do ano, os oficiais alemães deixam o seu apartamento de Nantes, onde pode regressar para passar o Inverno, antes de se juntar em Ancenis à irmã Maria, para a assistir na agonia. Em 1943, os bombardeiros aliados devastam a cidade de Nantes e multiplicam o número de pessoas sem abrigo. Gabriela acolhe uma destas desafortunadas famílias no seu apartamento.

O padre Parvillez deseja que se edite uma selecção das conversas de Gabriela com Jesus, e consegue a aprovação entusiasta do bispo de Nantes, Monsenhor Villepelet. Gabriela está consciente que essas palavras não são destinadas exclusivamente a ela, mas preferia que só fossem publicadas após a sua morte. Porém, o seu interlocutor divino convence-a a que ela mesma trabalhe nessa edição. Apesar das condições difíceis da guerra, o padre Parvillez encontra um editor entusiasta, a quem confia os cadernos de Gabriela. Algumas horas mais tarde, este é assassinado em plena rua. Recupera-se o manuscrito, mas será necessário esperar quatro anos para que surja uma nova possibilidade de edição. O primeiro volume dessas conversas espirituais com o título Ele e eu é prefaciado por Monsenhor Villepelet e pelo padre Jules Lebreton, decano da Faculdade de Teologia de Paris ; o bispo oferecerá um exemplar ao Papa Pio XII em 1950. A pedido expresso de Gabriela, a publicação é anónima. Em Julho de 1948, recebe as provas da obra, e Jesus encoraja-a a rezar pelo seu êxito sobrenatural : « Oh !, minha filha, por acaso podes saber que caminho empreenderá este pequeno livro ? Pede-Me que vá até aos mais miseráveis, até esses paralisados espirituais, esses angustiados sem esperança, esses mudos diante de Deus, esses possuídos pelos desejos do dinheiro. Pede-me que passe por esse pequeno livro como passava noutro tempo, curando, atraindo até Mim ». O êxito é considerável, de maneira que a primeira edição esgota-se ao cabo de seis meses ; o livro conhecerá mais sessenta edições e será traduzido em várias línguas. Mas isto não altera em nada o dia-a-dia de Gabriela ; ela a quem chamam “a eterna juventude de Ingrandes” continua a ser alegre e graciosa no entardecer da vida.

Mais um pouco

Pela primeira vez, apesar de tudo, a sua actividade transbordante conhece um travão. Em Agosto de 1949, umas semanas após a publicação do livro, teve de enfrentar uma operação cirúrgica por causa de um cancro no peito. Está totalmente disposta a morrer pelo seu Senhor, mas Jesus pede-lhe que trabalhe mais um pouco por Ele. Assim pois, Gabriela começa de novo, cheia de ímpeto, e dedica-se a preparar o segundo volume de Ele e eu. Em meados de Março de 1950, sente-se cansada e doente ; crê estar afectada por uma bronquite, e não faz grande caso. Os médicos constatam que o tumor canceroso atingiu os pulmões, pelo que Gabriela deve permanecer na cama. Conforma-se mas contrariada : « Mas, doutor, quando me tirará desta cama ? ». A resposta foi imediata : « Não a tirarei ! ». E tudo aceita simplesmente, em silêncio. « Parto para a grande viagem. Recebi a Unção dos enfermos. Magnificat ! Está na hora de regressar à Casa do Pai de família ! ». Contudo, a doença evoluciona demasiado lentamente, ao contrário do que gostaria esta alma ardente, a quem é exigida paciência : « Já que esta morte está decidida, que se decida já ! ». Conserva até ao final a vivacidade dos gestos, uma surpreendente presença de espírito e a coragem de consolar os que vêm chorar à cabeceira da sua cama, incluídos os sobrinhos e sobrinhas, a quem pede para ser sepultada com o hábito de Terceira Franciscana. Entretanto encontra-se sozinha para a grande partida, a 9 de Junho de 1950, na noite da festa do Corpo de Deus. Jesus vem cumprir o que lhe tinha prometido sete anos antes, no aniversário da sua primeira Comunhão : « No momento da tua morte, serei o teu canto de cisne, pois te faltará a força : não terás nenhum laço na terra nem nenhuma visão sobre o mais-além. Será o abandono do Gólgota : unir-te-ás mais que nunca ao Meu Coração abandonado, e estaremos juntos para a Passagem ». No túmulo de Gabriela está gravada uma inscrição que ela mesma tinha redigido : « Oh, Cristo, meu Irmão ! Trabalhar junto de Ti. Sofrer contigo. Morrer contigo. Sobreviver contigo ».

O‌ percurso terreno de Gabriela Bossis continua a ser um testemunho eloquente da extraordinária fecundidade de qualquer alma que procure, sem nunca desanimar, a intimidade de Jesus. Todos podem ouvi-lo dizer no fundo do coração, como a Gabriela, mesmo sem o som da voz : « Expõe-Me os teus suspiros, pois serão doces como a brisa da planície. Acolhê-los-ei de coração alegre como se apenas existisse uma alma no mundo, a tua, e, a cada alma, farei a mesma festa ; pois cada alma pode considerar-se a eleita do meu Amor. Nisso consiste o milagre do Coração do teu Deus : em eleger a todas e a uma só, no mais íntimo segredo de cada uma. Eu sou a Resposta ».

Dom Antoine Marie osb