Blason  Abadia de São José de ​​Clairval

F-21150 Flavigny-sur-Ozerain

France


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25 December 2016
Natal


Caro amigo da Abadia de São José

Um dia de Verão de 1955, na Faculdade de Medicina de Milão, uma estudante apresenta-se ao exame final do segundo ano. De improviso, o professor chama-a para a prova oral ; a princípio, não reage, depois ruboriza-se e explica com timidez : « Professor, estou em tratamento de uma doença nervosa, não oiço nada… Espero curar-me… Peço-lhe que tenha paciência… Pode formular-me as preguntas por escrito ? ». Os estudantes presentes na sala começam a rir. Julgando que se tratava de uma brincadeira de mau gosto, o professor grita : … « Paciência, paciência ! ». Vêem a situação ? Que lhes parece ? Onde se viu um médico surdo ? ». Depois, atira contra a parede a caderneta da desapontada e humilhada jovem, que murmura : « Peço-lhe desculpa ; não pretendia ofendê-lo ». Mas o professor permanece inflexível. Ao ver-se reprovada pela segunda vez, a estudante abandona a sala e diz a uma amiga, que viu tudo e que chora : « Não importa ; escuta, não digas nada à minha mãe por ora ; amanhã contar-lhe-ei o que se passou » ; e é ela mesma quem intenta desculpar o professor diante da mãe. Esta aluna nunca obteve o diploma de medicina, mas, do Céu, ensina hoje em dia a inumeráveis « pacientes » a arte de saber sofrer.

Benedetta (Benedita) Bianchi Porro nasceu em 8 de Agosto de 1936 em Dovadola, povoação da província de Forlì, em Romanha (norte de Itália). A mãe tem uma fé profunda que se esforçará por transmitir aos seus seis filhos. Com poucos meses de vida, Benedetta contrai poliomielite ; embora se consiga deter a tempo a enfermidade, a sua perna direita ficará mais curta que a outra. Um dia, durante um jogo no recreio, um rapaz, a quem a jovem havia contrariado, grita-lhe : « Sua coxa !) ». O irmão Gabriel levou a mal, pelo que resultou numa cena de pancadaria entre rapazes. As mães acodem para os separar. Mas Benedita não se perturba : « Chamou-me « coxa » ; mas que mal há nisso ? É verdade ! ». Essa frase reconcilia os dois rapazes que retomam o jogo.

Os grandes desejos de uma adolescente

Em 1942, a família Bianchi instala-se em Sirmione, nas margens do lago de Garda. A partir de 1946, Benedetta confidencia os seus pensamentos num diário íntimo, no qual a jovem escreve amiúde os seus defeitos : « A mãe disse-me que sou insuportável … Sou mal-educada e má ». Em 1949, teve de colocar um colete ortopédico para não ficar corcunda… Nesse dia escreve : « Chorei ; o colete aperta-me imenso debaixo dos braços ! Antes, era despreocupada e pensava que era como os demais. Agora, que abismo nos separa ! Mas, na vida, quero ser como os outros, se possível um pouco mais. Gostaria de chegar a ser alguém ». Na escola, a jovem obtém resultados brilhantes. Em 1953, aponta o seguinte : « Hoje, é dia de Páscoa ; como gostaria de me livrar dos meus pecados e apenas viver para Deus !… hoje, com Gabriel, filosofámos um pouco acerca de Deus e da imortalidade da alma. Que tontos são os homens quando têm vergonha de falar dessas coisas importantes ! ».

Numa homilia de 15 de Abril de 2010 aos membros da Pontifícia Comissão Bíblica, o Papa Bento XVI assinalava : « Hoje em dia, temos com frequência algum receio de falar da vida eterna. Falamos das coisas que são úteis para o mundo, mostramos que o cristianismo também ajuda a melhorar o mundo, mas não ousamos dizer que a sua finalidade é a vida eterna e que dessa finalidade resultam as normas para a vida… Devemos reconhecer de novo que só na perspectiva da vida eterna o cristianismo revela todo o seu sentido… A vida eterna existe, é a verdadeira vida, e desta verdadeira vida vem a luz que também ilumina este mundo ».

Em 15 de Fevereiro de 1953, questionada oralmente na aula de Latim, Benedetta não consegue ouvir as perguntas do professor. Os problemas de audição acentuam-se. Comenta no diário : « Nesses momentos, tenho ar de quê ? Mas, que importa ? Talvez que um dia nada compreenderei daquilo que dizem os demais, mas sempre ouvirei a voz da minha alma, e essa é o verdadeiro guia que devo seguir ». Em Outubro, à força de trabalho, obtém o diploma do ensino secundário com uma excelente classificação. De seguida matricula-se na Faculdade de Medicina de Milão ; o seu objectivo é « Viver, lutar e sacrificar-me por todos os homens ».

Entretanto, ameaçada de surdez, Benedetta atravessa um período de desânimo ; sente a vertigem do nada. À sua amiga mais íntima confidencia : « Sabes, Anna, dá-me a impressão de que estou num pântano monótono e sem fim, e que me afundo lentamente ; lentamente, sem dor nem amargura, inconsciente e indiferente face ao que ocorrerá, inclusive quando desaparecer a última nesga de céu e quando a terra me cobrir » … « Frequentemente, vejo-me cheia de dúvidas e caio no mais profundo cepticismo ». O maior perigo que ameaçava a jovem não era a doença, mas a tentação insidiosa de soçobrar no niilismo e no desespero. Não obstante, é precisamente então que começa a tomar consciência da riqueza da vida interior, um mundo muito mais vasto que o dos sentidos. E escapa-lhe um grito que anuncia a orientação futura da sua vida : « Como gostaria de viver somente para Deus ! ». Todavia, o seu encontro pessoal com Jesus Cristo só terá lugar mais tarde.

Lutando com estóica obstinação contra a sua incapacidade, Benedetta prossegue com êxito os estudos. Aprendeu a ler nos lábios e, nos exames orais, responde às perguntas rapidamente, sem deixar que se adivinhe a sua surdez. Em Novembro de 1955, é autorizada a repetir o exame oral do Verão precedente, e nessa ocasião, as perguntas são-lhe formuladas por escrito, obtendo uma nota excelente ; mas nessa mesma tarde, tem uma enxaqueca e, bruscamente, fica com o campo de visão reduzido. De seguida tem um pressentimento : « Não, não meu Deus ! Os olhos não ! ». Numa tarde de 1956, a estudante mostra a uma amiga um tratado de Medicina : « Esta é a minha enfermidade » ; e mostra-lhe uma fotografia de um doente vítima de « neurofibromatose difusa », denominada igualmente « doença de Recklinghausen ». Trata-se de uma patologia raríssima, mas inexorável, que destrói progressivamente os centros nervosos formando pequenos tumores ; o nervo acústico é o primeiro a ser atingido, depois o nervo óptico e os demais sentidos ; no fim produz-se uma paralisia progressiva. Após examiná-la, os médicos admitem, consternados, que o diagnóstico de Benedetta é correcto. Começa então uma longa série de permanências no hospital e de intervenções cirúrgicas destinadas a travar esse terrível processo.

« Uma dócil ovelha nas suas mãos »

Em 27 de Junho de 1957, Benedetta é operada à cabeça. Vendo a morte à sua frente, confia à mãe : « Que contente estou, mamã, de ir para junto do Senhor, sem um pecado mortal ». Estas palavras de são Francisco que tanto amava vêm-lhe à memória : « Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã morte corporal, da qual nenhum homem vivente pode escapar. Ai daqueles que morram em pecado mortal, felizes os que ela encontrar na Tua santíssima vontade, porque a segunda morte não lhes fará mal » (São Francisco de Assis, Cântico das criaturas). Enquanto lhe rapam o cabelo, sente-se humilhada, mas recorre à oração : « Enquanto me rapavam, sentia-me como um cordeiro a ser tosquiado. Pedi ao Senhor que faça de mim uma dócil ovelha nas suas mãos ». Logo após sair da anestesia, toca no rosto : « Cortaram-me o nervo facial » ; agora, tem paralisada a metade esquerda da face. O cirurgião não sabe como desculpar-se por essa falha profissional, mas ela com toda a simplicidade diz-lhe : « O senhor fez o que pôde ; dê-me a mão e esteja descansado. É algo que pode acontecer : o senhor não é Deus ! ».

Entretanto, a enorme força moral de que dá provas já não é suficiente para suportar a situação ; à sua melhor amiga, Maria Grazia, escreve-lhe um dia do seu apartamento milanês situado num sétimo andar : « Há momentos em que tenho vontade de me atirar pela janela ». Não obstante, não se deixa vencer pela enfermidade ; à custa de um trabalho persistente, em Junho de 1959, termina com êxito o quinto ano de medicina : só lhe falta um ano para terminar o curso ! Mas depressa, uma operação destinada a deter a paralisia progressiva dos membros inferiores salda-se num fracasso : deixa de poder caminhar. Em 1960, vê-se obrigada a renunciar por completo aos estudos : é uma dura prova para esta jovem tão dotada e ávida de acção. Mas enquanto os seus próximos assistem, impotentes, à sua progressiva destruição física, são também testemunhas estupefactas de seu progresso espiritual. Apesar da sua reclusão no quarto, não manifesta nem tristeza nem desânimo : « Levo a vida de todos os dias, e quão preenchida me parece ! A vida em si mesma parece-me um milagre, e gostaria de dirigir um hino de louvor Àquele que ma deu ». E à mãe que lhe oferece um passarito numa gaiola dizendo que é como ela, responde : « Não, mamã, nunca fui tão livre como agora apesar de estar aqui imobilizada ». Poderá dizer à Maria Grazia, com a sinceridade que a caracteriza : « No que concerne ao espírito, estou perfeitamente serena, e inclusive muito mais : estou feliz ; não penses que exagero ». Ao mesmo tempo, mostra-se humilde, e diz-se muito imperfeita, « pecadora » aos olhos de Deus ; e teme perder esta alegria interior de que sente ser indigna.

Mas, nem tudo é fácil. Aos momentos de paz sucedem-se tempos de angústia interior. Em 1960, Benedetta escreve a uma nova amiga, Nicoletta, já experimentada/iniciada na vida espiritual : « Neste momento atravesso um período de grande aridez. Sinto-me só, cansada, um pouco humilhada, sem grande paciência… O mais doloroso é que não estou em paz. Reza por mim, reza por mim… Porque me sucede isto ? Porque é que Deus o permite ? ». A amiga responde-lhe : « Não te forces a sentir que crês, nem a compreender até que ponto é justo que sofras tanto. Não te transtornes se te parece que te revoltas : aos olhos de Deus, isso não tem importância ; Ele conhece a verdade… Face a este imenso mistério, só quer o nosso « sim » ; pouco importa que o digamos sem convicção ». Benedetta escuta, diz o seu « sim » e, pouco a pouco, vive a experiência da presença de Jesus Cristo nela ; poderá escrever a Nicoletta : « Bendita sejas pela alegria que me ocasionaste, uma alegria demasiado grande para mim, que sou indigna ; fui invadida de alegria, como se todos os oceanos tivessem sido despejados numa casca de noz ».

A partir desse momento, Benedetta recebe o sofrimento como sinal de uma predilecção divina e não como uma cruz que é necessário carregar heroicamente. Jesus chama-a a partilhar a sua cruz com o objectivo de a identificar com Ele ; ela confia e encontra a força no Evangelho que todas as manhãs lê, em São Paulo e nos Salmos.

Na Encíclica sobre a esperança, Bento XVI confirma a justeza dessa atitude : « Para que a oração produza esta força purificadora, deve, por um lado, ser muito pessoal, uma confrontação do meu eu com Deus, com Deus vivo. Mas, por outro lado, tem de estar guiada e iluminada uma e outra vez pelas grandes orações da Igreja e dos santos, pela oração litúrgica, na qual o Senhor nos ensina constantemente a rezar de forma correcta » (Encíclica Spe salvi, 30 de Novembro de 2007, n. 34).

« Fala-lhe, à Virgem ! »

Em Maio de 1962, Benedetta parte para Lourdes num comboio com assistência médica. No hospital, na cama contígua à sua, encontra-se uma jovem de vinte e dois anos, Maria, paralítica como ela. Numa situação material e moral humanamente desesperada, Maria veio a Lourdes pedir um milagre à Imaculada Conceição ; reza sem cessar, mas nada de extraordinário acontece. No dia anterior ao regresso, as duas enfermas encontram-se lado a lado, em frente da gruta. Maria soluça. Benedetta agarra-lhe a mão e aperta-a nas suas como querendo rezar por ela : « Maria, a Virgem está ali e olha para ti. Fala-lhe, à Virgem ! ». De repente, Maria levanta-se da maca. Dá, devagar, uns passos, ainda incrédula. Depois, cheia de alegria, avança entre as cadeiras de rodas, chorando de emoção e de agradecimento. Benedetta, feliz com esse milagre, entretanto experimenta um momento de tristeza ao pensar que a beneficiada tinha sido outra. Depois, acalma-se e abandona-se nas mãos de Maria. Um ano mais tarde, regressará a Lourdes, de onde escreverá : « Sinto a doçura da resignação. Para mim, esse é o milagre de Lourdes este ano… A Virgem devolveu-me tudo o que tinha perdido. Restituiu-me tudo o que se me havia tirado, porque possuo a riqueza do Espírito Santo ». Em 20 de Agosto de 1963, uma enfermeira encontrá-la-á em êxtase ; Benedetta confidencia-lhe ter visto a Virgem Santíssima, e acrescenta : « Quão formosa é a Virgem ! ».

Entretanto, sucederam-se várias operações à cabeça. Antes da última (27 de Fevereiro de 1963), Benedetta confessa o seu medo a Maria Grazia, que lhe recorda então este fragmento do Diário de um pároco de aldeia, um romance de Georges Bernanos : « Sim, tenho medo, direi sem vergonha : « tenho medo », e o Senhor dar-me-á forças ». Benedetta repete espaçadamente, durante muito tempo esta frase ; e pouco a pouco, a paz instala-se nela. Agradece efusivamente à sua amiga. No dia seguinte à operação, anuncia que agora está cega, mas pede que não o digam ao cirurgião, para não o entristecer. Aceitou esta cruz da cegueira que, em 1955, a tinha aterrorizado, e com a alma em paz : « Só há que confiar em Deus, com os olhos fechados. Estou a viver a simplicidade, quer dizer, o desprendimento da alma… como é belo ! Fica-se mais leve e livre ! ».

Bento XVI, a propósito das grandes tribulações que parecem humanamente impossíveis de suportar, apresenta uma luz, este segredo que Benedetta descobriu : « É importante saber isto : posso sempre ainda esperar, mesmo que aparentemente (…) já nada mais tenha que esperar. Só a grande esperança-certeza de que, apesar de todas as frustrações, a minha vida pessoal e a história no seu conjunto estão guardadas pelo poder indestrutível do Amor e que, graças a ele, têm sentido e importância, só uma esperança assim pode, nesse caso, dar ainda ânimo para agir e prosseguir » (Spe salvi, n. 35).

A partir de então, e durante quase um ano, Benedetta é como um castelo inacessível, sem portas nem janelas. Contudo, duas pequenas « seteiras » ficam abertas para o exterior : uma voz ténue para se fazer entender, e a sua mão esquerda, que ficou « milagrosamente » sensível ; com os dedos dessa mão válida, os seus próximos traçarão no seu rosto os sinais do alfabeto mudo que ela não vê, mas sente (por exemplo, o « b » forma-se com o indicativo e o médio juntos, postos sobre a face … Poderá, desse modo, comunicar ! O seu quarto será “assediado” por visitantes que acudirão para lhe dar ânimo, mas também para lhe pedir ajuda. Benedetta tem o dom de espalhar alegria à sua volta ; aconselha e mostra a todos a « via estreita » que conduz a Deus. Diz à melhor amiga, que não suporta vê-la sofrer tanto fisicamente : « Devemos aceitar o mistério, Maria Grazia ; o que nos angustia é perguntarmo-nos « Porquê ? » … O Senhor apenas nos dá os sofrimentos que possamos suportar ; nem mais nem menos ». E a sua amiga dará o seguinte testemunho : « Então dei-me conta de que subitamente algo tinha mudado nela após ter ficado cega. Parecia tê-la invadido uma grande paz, como se se sentisse completamente liberta do medo e da angústia ». Dom Gabriel, um sacerdote que lhe leva com frequência a sagrada Comunhão, receberá esta confidência : « Se por um breve instante as tentações se manifestam, chamo-O, mesmo que empalideça de pavor, e sinta imediatamente a presença do Senhor que me consola ».

Benedetta interessa-se por todos, sobretudo pelas pessoas que se encontram afastadas de Deus. Em Maio de 1963, a mãe lê-lhe através « da linguagem das mãos » a carta de um jovem, publicada num semanário. Natalino está atingido por uma doença grave ; desorientado e sem esperança, pede auxílio. Ela escreve-lhe : « Sou surda e cega, por isso as coisas tornaram-se complicadas para mim… Entretanto, no meu calvário, não estou desesperada ; sei que no final do caminho Jesus me espera. No início na minha cadeira, agora na cama – a minha morada para o futuro –, encontrei uma sabedoria maior que a dos homens ; descobri que Deus existe, que é amor, fidelidade, alegria, certeza, até ao fim dos séculos… Os meus dias não são fáceis ; são duros, mas consoladores porque Jesus está comigo, com os meus sofrimentos, e Ele dá-me a sua doçura na solidão e a luz na obscuridade… Sorri-me e aceita que colabore com Ele. Adeus, Natalino : a vida é curta, passa depressa ; é um passadiço muito curto, perigoso para quem quer fruir avidamente, mas seguro para quem coopera com Ele a fim de entrar na Pátria ».

Em 21 de Janeiro de 1964, ao sentir muito próximo o momento do encontro definitivo com Jesus, seu Esposo, Benedetta confessa-se e comunga. Durante a noite do dia 22, pede à enfermeira que fique junto dela, pois Satanás está a tentá-la : « Emília, amanhã morrerei. Sinto-me muito mal ». Pela manhã, a mãe observa uma rosa branca, aberta no jardim… uma rosa em flor em Janeiro ! E anuncia a descoberta a Benedetta, que responde : « É o sinal que eu esperava ! ». Recorda-lhe então um sonho que teve no dia de Todos-os-Santos precedente : que entrava no jazigo da família e via-o adornado com uma rosa branca resplandecente de luz. Um pouco mais tarde, após sofrer uma hemorragia, extingue-se aos vinte e sete anos, murmurando : « Obrigada ».

« Nunca mais estarei sozinha com o medo »

A fama de Benedetta Bianchi Porro, após a sua morte, não parou de crescer. Muitas pessoas que enfrentam o sofrimento encontram força e ânimo lendo o relato da sua vida e as suas cartas. Como Maria Grazia, podem dizer-lhe : « Nunca mais estarei sozinha com o medo, porque me ensinaste o valor da oração ». Em 23 de Dezembro de 1993, são João Paul II aprovava o decreto que proclamava a heroicidade das suas virtudes ; na actualidade, para que a venerável Benedetta possa ser proclamada « Beata », falta que seja reconhecido um milagre obtido mediante a sua intercessão.

Na exortação apostólica Salvifici doloris (11 de Fevereiro de 1984), São João Paulo II escreveu estas linhas, que podem aplicar-se precisamente à trajectória espiritual de Benedetta : « Pode-se, sem dúvida, dizer que quase sempre todos enfrentamos o sofrimento com um protesto tipicamente humano e colocando a questão : « Porquê ? ». Pergunta-se qual seja o sentido do sofrimento e procura-se uma resposta a esta questão no plano humano… Cristo não responde directamente nem de modo abstracto a esta pergunta humana sobre o sentido do sofrimento. O homem entende a sua resposta salvífica à medida que ele mesmo se torna partícipe dos sofrimentos de Cristo… Esta resposta é acima de tudo uma chamada. É uma vocação. Cristo não explica abstractamente as razões do sofrimento, mas antes de tudo diz : « Segue-me ! Vem ! Participa com o teu sofrimento nesta obra de salvação do mundo que se cumpre com o meu próprio sofrimento ! Pela minha Cruz ! À medida que o homem toma a sua cruz, unindo-se espiritualmente à Cruz de Cristo, manifesta-se ante ele o sentido salvífico do sofrimento… Então o homem encontra no seu sofrimento a paz interior e inclusive a alegria espiritual » (n. 26).

Em 24 de Maio de 1963, Benedetta confidenciava o seguinte : « Quisera dizer aos que sofrem, aos doentes, que se somos humildes e dóceis, o Senhor realizará em nós grandes coisas ». Seguindo o seu exemplo, peçamos a Jesus que faça de cada um de nós « uma dócil ovelha nas suas mãos ».

Dom Antoine Marie osb

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